Na sombra do Natimorto

Lourenço Mutarelli faz o papel no longa que ressalta o que há de dark no seu livro

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

29 Abril 2011 | 00h00

Depois da indicação para o Oscar de curta por Uma História de Futebol, Paulo Machline resolveu fazer um longa contando uma história de amor. Seu amigo Rodrigo Teixeira é especialista em direitos e recebe muitos livros para avaliar. Teixeira lhe enviou os originais de Natimorto, de Lourenço Mutarelli. Duas horas depois, fascinado pelo estranhamento que a obra e os personagens lhe produziram, Machline ligou, anunciando - "É o que eu quero".

Com o aval do Oscar, Machline achou que seria fácil obter financiamento. Não foi. O Oscar teve o efeito contrário - de maldição. "Todo mundo achava que eu estava montado na grana e não precisava mendigar por recursos." Finalmente, Natimorto foi feito - como BO, baixo orçamento. Estreado no Festival do Rio de 2009, o filme esperou quase dois anos para chegar aos cinemas. De novo, Machline só encontrou percalços. "Todos os distribuidores com quem conversei esperavam que eu pusesse dinheiro próprio no lançamento." Machline buscou recursos nas leis de patrocínio e, associado a Adhemar Oliveira, do Espaço Unibanco e do Arteplex, está lançando o filme em São Paulo e no Rio.

Ele conta, não se queixa. Desde a leitura do livro até a estreia no Festival do Rio foram dois anos de trabalho - o que nem é muito, dadas as condições em que se trabalha no País, dependendo de editais e outras fontes de financiamento. O resultado é muito bom, embora haja controvérsia (leia abaixo o Gostei/ Não Gostei). Machline sabia, desde o início, que queria ir na contramão de O Cheiro do Ralo, de Heitor Dhalia - para reencontrar o verdadeiro Mutarelli, de imaginação mais sombria. E ele também tinha certeza de que queria Simone Spoladore. Desde que a viu Lavoura Arcaica, de Luiz Fernando Carvalho, Machline ficou chapado. "Simone não precisa dizer uma palavra para transmitir tudo sobre a personagem." Se a mulher foi uma escolha tranquila - o filme trata de um casal encerrado numa casa, o caçador de talentos viciado em nicotina e a cantora de ópera -, o homem foi mais complicado.

"O Cheiro do Ralo tinha o Selton Mello, que trouxe o timing de comédia de seus trabalhos com o Guel (Arraes)." Ele queria ressaltar o Mutarelli dark. "O humor está lá, mas encoberto." Pensou em Marco Ricca, que chegou a participar de ensaios, mas abandonou o barco para realizar Cabeça a Prêmio. Matheus Nachtergaele, também sondado, desistiu quando A Festa da Menina Morta foi selecionado para o Festival de Cannes. O próprio Mutarelli, que fazia o narrador nos ensaios, pediu para viver o protagonista. Deu certíssimo (leia abaixo).

Simone não teve medo de encarar a nudez física e emocional da mulher. "É misteriosa, alguém a quem não consigo entender, mas ela fazia refletir alguma coisa em mim. Fui indo, fazendo, sem buscar respostas." Foi um processo muito bacana, ela avalia agora, com certa distância. Uma contribuição importante foi dada por Madalena Bernardes. A professora e soprano - veja seu site e o Facebook - orientou Simone na criação de sua cantora de ópera. "Ela me ajudou principalmente na postura da personagem."

NATIMORTO

Direção: Paulo Machline (Brasil, 2009, 92 min.).

Censura: 12 anos

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