Na solidão da cidade

Misto de documentário e ficção, filme de Sérgio Borges situa personagens no limite da marginalidade

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

18 de novembro de 2011 | 03h06

Sérgio Borges tem se surpreendido com a reação do público a O Céu Sobre os Ombros. Vencedor dos Candangos de melhor filme e direção em Brasília, no ano passado, O Céu é pequeno, possui uma estrutura não convencional e sua história é um pouco diluída. O diretor faz questão do 'pouco', porque diz que a história foi feita com a clara intenção de propor uma evolução dramática dos personagens - "e eles evoluem".

"O público tende a julgar os personagens num primeiro movimento, mas depois a evolução da própria narrativa leva as pessoas a olharem o trio de forma diferente. São personagens multifacetados, que não se pode reduzir a um estereótipo." Esses personagens são a travesti Everlyn, o escritor Lwei Bakongo e o seguidor de hare krishna Murari. São personagens solitários, que vivem no limite da marginalidade e todos possuem uma ligação muito forte com a escrita. É necessário que a empatia do espectador por eles - e pelo filme - se estabeleça para a plena fruição de O Céu, mas, pensando bem, quando não é assim? Se o público não se interessa pelos personagens nem pela história, qual a chance de, mesmo assim, se interessar pelo filme?

Sérgio Borges pertence ao grupo mineiro Teia. Seu cinema propõe um misto de documentário e ficção - um híbrido. Com a ajuda de uma diretora de elenco, Borges selecionou cerca de 120 possíveis personagens. Eles tinham de satisfazer aos critérios já estabelecidos - solidão, marginalidade, escrita - e mais. "Todo mundo constrói personagens para se situar no mundo, mas eu queria pessoas que, claramente, elaborassem personas para nortear-se. E queria que suas histórias parecessem impossíveis, inacreditáveis."

Dessa combinação, ou dessas exigências, saíram quatro personagens, mas um deles foi eliminado no processo de montagem de O Céu. Sérgio Borges ficou com Everlyn, Lwei e Murari Krishna. É, como ele diz, um filme de processo. Borges teve uma ajuda imprescindível, a da roteirista Manuela Dias. Trabalhando com ela, ele criou um roteiro que não levou ao set. O filme foi feito muito em cima da observação do trio, mas o diretor admite que jogou os atores em situações que criou à revelia deles. Por exemplo, ele pediu a um editor, seu amigo, que telefonasse para Lwei enquanto o filmava. Surgiu aquela conversa em que o próprio Lwei fica em dúvida se o livro deve ser editado.

Outro diálogo provocado foi a cena do bar, com a mulher que puxa o papo sobre suicídio. E, claro, a mãe das cenas 'provocadas' de O Céu é a da relação sexual dentro do carro, quando o espectador fica em dúvida se Everlyn, como profissional do sexo - ela não gosta da definição -, transou mesmo com o cliente. Num debate na Mostra, Everlyn fez mistério e devolveu a pergunta "O que vocês acham?"

A roteirista Manuela Dias é casada com Vinicius Coimbra e roteirizou com (e para) o marido o longa que ele adaptou de A Hora e a Vez de Augusto Matraga, de Guimarães Rosa. Manuela também foi a roteirista de O Transeunte, de Eryk Rocha. São filmes diversos. Um de recorte mais clássico, os outros dois híbridos de documentário e ficção, mas com personagens (o idoso de O Transeunte, o trio nos limites da marginália de O Céu) também diferentes, embora compartilhem a solidão urbana.

"Ela foi muito importante na elaboração do que eu pretendia lograr, mesmo que não tivéssemos um roteiro formal, para ser seguido durante a filmagem", avalia o diretor. Borges seguiu seus atores - os quatro, reduzidos a três -, durante um mês. Trabalhou com duas câmeras HDV, uma delas operada pelo fotógrafo Ivo Lopes Araújo a outra por ele mesmo. Reduzir tudo isso a menos de duas horas foi "muito doloroso", ele confessa. Ele ouve a objeção do repórter - leia o texto abaixo. Lwei fica nu quase todo o tempo, mas faz uma ginástica danada para não mostrar a genitália, o que cria um paradoxo. O naturista vira antinatural - "Ele realmente esconde no começo, mas ao posicionar a perna daquele jeito criou um efeito escultórico muito interessante." Afinal, trata-se de um filme. 'Estética' e linguagem são tão importantes quanto 'ética'. Nos festivais de que O Céu participou, os espectadores reagiram com respeito e curiosidade pelos personagens, mas agora é a hora da verdade. Borges está louco para saber como será a reação do público 'normal', mesmo sabendo que essa 'normalidade', de perto, não existe.

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