Agência Fotosite/Divulgação
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Na São Paulo Fashion Week o novo luxo é minimal, prático e natural

Em tempos de crise, estilistas apostam em peças versáteis e duráveis

Maria Rita Alonso e Sergio Amaral, Especial para O Estado de S. Paulo

25 Outubro 2018 | 00h04

Uma roupa simples, atemporal, que não tem estação e, principalmente, não tem ocasião tomou conta das passarelas no quarto dia de desfiles da São Paulo Fashion Week. Está fora de moda pensar em um armário compartimentado com peças próprias para ir à festa, ao clube, ao trabalho. Isso não é sustentável. E se não é sustentável, não faz sentido. O novo luxo mora na naturalidade. Mora em modelagens funcionais e confortáveis, portanto, amplas. Em peças pintadas à mão e em materiais nobres de fibras como o linho, a seda e o algodão. “Sair montado demais hoje é como se você carregasse uma legenda: estou desinformada. O legal agora é parecer que não fez esforço para se vestir”, diz a consultora de moda Bia Paes de Barros.

Nessa linha, é difícil pensar em uma roupa que fique tão chique usada com tênis quanto a de Gloria Coelho. Ainda mais quando a coleção é baseada em tons neutros, com uma cartela enxuta, como esta última que a estilista apresentou no teatro da Faap. Investindo em casacos esportivos, com golas poderosas e tecidos tecnológicos, Gloria explorou trench-coats, parkas e pelerines.

Sua inspiração vem do futuro, da estética de Blade Runner, da arquitetura de Copenhagen, dos círculos e efeitos tridimensionais da obra da artista Yayoi Kusama. O frescor está no jogo de formas rígidas e fluidas de suas modelagens. “As saias com fendas usadas com casacos são sexy e modernas, equação nem sempre fácil”, diz Bia. Para completar, a maior parte dos looks veio com tênis de solado baixo. 

Sintonizada com esse novo minimalismo, a marca Beira partiu de uma única tonalidade de bege para fazer um desfile que chamou a atenção pela limpeza estética que valorizava a construção das peças. Todos os vestidos, batas, saionas e calças soltas passaram por um processo de descoloração, que retira o tingimento anterior revelando nuances únicas. “Por trás de cada coleção está a funcionalidade”, diz a estilista Lívia Cunha Campos. 

Na Bobstore, o novo luxo está presente no conceito da coleção, concebida para a realidade prática da mulher real. “Tudo o que criamos para a passarela estará nas lojas. São roupas pensadas para o dia a dia da mulher, que sai para levar os filhos à escola, depois tem uma reunião, seguida de happy hour”, diz Sam Santos, que, ao lado de André Boffano, assina a direção criativa da marca. A proposta foi explorar o tricô, o couro e a alfaiataria, três pilares da marca, que tem mais de 20 anos e só agora faz sua estreia no evento. O mote country da coleção casou com o histórico boho da Bobstore e ganhou uma nova interpretação. Ao trazer elementos da obra da pintora Georgia O’Keeffe, a dupla aposta em referências ao cerrado e à flora rasa da região do Novo México, incorporadas na paleta de tons terrosos.

Um ponto fora da curva, Lino Villaventura mostrou uma moda luxuosa, rica em um artesanato típico dos ateliês de couture. Suas peças, todas únicas e algumas já vendidas antes mesmo de serem desfiladas, são espécies de obras-primas de um mestre da costura. 

Celebrando 40 anos de sua marca, Lino mostra vestidos que trazem uma vertiginosa mistura de bordados de miçangas, cascatas de pétalas, plumas de pavão branco e nervuras. “Vou fazendo, vou inventando”, assume o estilista, que não segue tendências.

Projeto Estufa.

Integrante da incubadora do evento que reúne jovens estilistas, a pernambucana Helena Pontes foca numa alfaiataria com interessantes geometrias, construída com materiais naturais. Enquanto a marca Ão, da figurinista Marina Dalgalarrondo, rompe convenções, com elásticos e volumes nas roupas que causam estranheza. A Korshi 01 está entre um dos mais interessantes nomes do Estufa até aqui. O ponto de partida do estilista Pedro Korshi é um tipo de sustentabilidade focada no utilitarismo. Visando aproveitamento máximo de uma roupa, ele usa botões de pressão e velcro em pontos estratégicos para desmembrar uma mesma peça em várias. Mais versátil, impossível.

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