Wilton Junior/AE
Wilton Junior/AE

Na quebrada de Tantinho

Em disco premiado, o sambista recebe Germano Mathias para homenagear Padeirinho da Mangueira em São Paulo

Lucas Nobile, O Estado de S.Paulo

02 de outubro de 2010 | 00h00

Corria o ano de 1958 no Morro da Mangueira e Tantinho arrancava para o armazém do Seu Almeida. Chegando lá, teve de ouvir a sentença impiedosa para um garoto de sua idade: "Meus pêsames pela morte do seu pai, mas, olha, ele deixou umas despesas aqui". Aos 12 anos, ele acabara de perder o pai, Seu Zezinho - que morreu em um sanatório em Jacarepaguá -, e decidiu assumir a família e cuidar de suas duas irmãs e da mãe, Dona Mendes. Uma semana depois, trabalhando na feira e limpando caixas de gordura, ele conseguiu quitar a dívida. Hoje, Tantinho está com 64 anos e grande parte de sua personalidade foi moldada pela precocidade imposta por portas abertas e fechadas nos morros da vida.

Criado sem a figura do pai, ele teve de assumir responsabilidades muito cedo. Era praticamente um homem em corpo de menino. Porém, ao mesmo tempo, as consequências da perda se tornaram meros subterfúgios para que seu talento nato aflorasse em forma de samba. Aos 5 anos, ele desfilou pela primeira vez pela Estação Primeira de Mangueira. Na época, sua mãe, que saía na ala das baianas, não tinha com quem deixá-lo. Como ainda não havia uma versão mirim na escola, Tantinho foi para a Avenida Rio Branco tocando tamborim no meio de veteranos e, quando os fiscais do juizado de menores apareciam, ele, pequenino, seguia o cortejo escondido sob a saia de baiana da mãe.

Oito anos depois, aos 13, recomendado por uma das figuras mais influentes da escola, Dona Neuma, Tantinho ingressou na ala dos compositores depois de suar frio e encarar um teste diante do ranzinza Cartola. "Eu sabia que não podia apresentar samba de criança ali. Desde cedo eu era o único que batia de frente com o Cartola. Nunca questionei a música dele, mas como pessoa ele era muito chato, implicava com tudo o que a gente fazia. Os adultos estavam tocando e ele não queria a gente por perto. Não tinha muita paciência com as crianças, como o Nelson", conta o desbocado Tantinho, referindo-se aos ensinamentos que teve com Nelson Cavaquinho.

 

 

Vídeo video

Tantinho ensina diferentes maneiras de tocar pandeiro e tamborim

     

Levado no colo pela precocidade, o menino de 13 anos já entornava seus copos nas noites de boemia. Era o jeito de acompanhar os bambas que musicalmente também muito lhe ensinaram e deram cancha para que ele se tornasse o exímio versador de partido alto que se tornou. O elenco de professores era formado por nomes como Cartola, Carlos Cachaça, Xangô da Mangueira, Nelson Cavaquinho, Nelson Sargento e Jamelão, que chegou a declarar que "um dia só passaria o bastão de crooner da Mangueira se fosse para Tantinho".

Padeirinho. Entre os mestres, também aparecia a figura de Padeirinho da Mangueira, que teve 14 temas de sua obra lançados em disco no ano passado por Tantinho. Autor de sambas de primeira linhagem, como A Situação do Escurinho, O Remorso me Persegue e Favela, merecia o mesmo destaque dos portelenses Monarco, Paulinho da Viola, Argemiro, Jair do Cavaquinho e Casquinha, mas é pouco citado. Muito se deve ao fato de ele não ter gravado nenhum disco e o público ter acesso à sua obra apenas por meio de registros de outros intérpretes. Em 1987, ele estava prestes a gravar seu primeiro álbum, mas morreu de depressão apenas dois meses após o falecimento de sua mulher, Mida, com quem conviveu por mais de 40 anos. "Ele foi um grande partideiro, com a memória, o improviso, o verso e a rima no tempo certo, mas também era muito chato. Ele era muito talentoso, mas pode ver que ele quase não fazia samba com os outros compositores de Mangueira. Ele bebia muito e começava a maltratar as pessoas", diz Tantinho.

O cantor e pupilo de Jamelão também pouco gravou e ainda hoje acredita não levar uma carreira profissional. Tantinho Canta Padeirinho da Mangueira é apenas seu segundo disco-solo. Ele é daqueles que não dá ponto sem nó. Quando decide gravar, é pra valer. "O disco tem partido alto, samba-enredo, samba sincopado. Eu toquei apenas quatro vezes com o Padeirinho. O Tantinho, que conviveu bem com ele, foi fundamental, principalmente na escolha do repertório", destaca Paulão 7 Cordas, que assina os arranjos e a direção musical.

Patrimônio. Em 2007, com seu primeiro álbum, o duplo Memória em Verde e Rosa, ele já havia feito um belíssimo trabalho de resgate e preservação do patrimônio mangueirense, registrando 32 temas de Geraldo Pereira, Djalma Baiano, Nelson Sargento, Chiquinho Modesto, Xangô da Mangueira e do próprio Padeirinho, como Fofoca no Morro e Recordar É Viver.

Assim como todos os citados acima, conhecidos por seus apelidos, Tantinho convive com a alcunha desde criança e diz acreditar que o motivo seja sua baixa estatura, apenas 1,60 m. O nome da certidão de nascimento, Devani Ferreira, é usado apenas por gozação de amigos, como Nei Lopes, ou por assuntos sérios. "Quando minha mulher atende o telefone e diz que procuram pelo Devani, já fico preocupado com o papo, deve ser alguma cobrança", explica Tantinho.

Hoje, ele vive tranquilo com a esposa Bernadete, em uma casa confortável, de 240 metros construídos e dois andares, em Jacarepaguá. Longe de ser rico, mas os tempos de misturar café com fubá e fazer as necessidades em um jornal que forrava o chão ficaram no passado. Assim como a pilhéria da juventude, quando bebia frequentemente ao lado dos bambas e, no papel de crooner da Mangueira cantando seus sambas de terreiro, chamava a atenção das cabrochas da escola. "Eu aprontei demais, tentaram até me dar uns tiros, mas não me acertaram. Hoje eu tomo só minha cervejinha, mas sempre com profissionalismo, respeitando dias de gravação e de shows."

Com um discurso farrista e malandreado, Tantinho nunca dorme antes das 2 horas da madrugada. Em relação à escola de samba de sua vida, sabe que o reconhecimento voltado a ele é justo, mas decepciona-se por ver a agremiação não ser nem sombra dos tempos áureos em termos musicais. "Eu sou praticamente um baluarte da escola, mas a relação, não só a minha com a Mangueira, mas a do Monarco com a Portela, do Nei Lopes com o Salgueiro, é ilusória. A gente sabe que não se fazem mais aqueles sambas de terreiro bonitos, estou de saco cheio desses sambas-enredo. Eu não consigo chegar à quadra e ouvir tocar hip-hop ou rap. Nem sei o que é essa p... Até estranho, mas sei que minha fase lá passou."

OS FEITOS MANGUEIRENSES DE TANTINHO E PADEIRINHO

l.Tantinho desfilou pela primeira vez pela Mangueira em 1952, quando tinha apenas 5 anos. Tocando tamborim, ele era obrigado a se esconder debaixo da saia de baiana de sua mãe para escapar do juizado de menores.

2.Precoce, aos 13 anos Tantinho ingressou na ala de compositores da Estação Primeira de Mangueira. No teste, levado por Dona Neuma, ele teve de passar pelo crivo de ninguém menos que Cartola.

3. Cantando desde cedo no meio dos bambas, Tantinho era apadrinhado por Jamelão. O lendário puxador da escola chegou a declarar que "só passaria o bastão de crooner da Mangueira para Tantinho".

4. Outro grande nome a se curvar ao talento de Tantinho foi Severino Araújo. O maestro endossou as palavras de Jamelão quando levou sua Orquestra Tabajara para se apresentar na Mangueira.

5.Padeirinho também teve de se aprovado por Cartola. A condição era a seguinte: mostrar dez composições suas e ter todas bem aceitas. Diante de tamanha qualidade, Cartola não reprovou nenhuma.

6. Osvaldo Vitalino de Oliveira, nome de batismo de Padeirinho, não chegou a gravar nenhum disco. Em 1987, ia fazê-lo, mas morreu apenas dois meses depois do falecimento de sua mulher.

 

''O samba ficou muito light, sem pegada''

Não à toa Tantinho foi contemplado pelo Prêmio da Música Brasileira nas categorias melhor cantor e disco de samba. Além do convívio com tantos bambas, ele herdou do pai, calangueiro contumaz, a verve para versar de improviso, tão primordial para reinar nas rodas de partido alto. Poucos como ele têm a versatilidade necessária para dar voz ao repertório tão diverso de Padeirinho. O disco soa verdadeiro porque não é alguém tentando radiografar o samba em caricatura. Tantinho é o samba, sincopado, enredo e partido. Com dicção e divisão perfeitas, ele dá uma aula em A Situação do Escurinho, O Remor-so me Persegue, Esta Saudade e Favela. "Tantinho canta à moda carioca. E o Padeirinho é como Zé Keti, Jorge Costa, Geraldo Pereira e Raimundo Olavo. Infelizmente, hoje não sabem mais fazer sambas assim. O samba ficou muito diet, muito light, sem pegada", diz Germano Mathias.

TANTINHO DA MANGUEIRA

Sesc Pompeia. Rua Clélia, 93,

tel. 3871-7700. Hoje, às 21h30.

R$ 4 a R$ 16

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