Arquivo pessoal
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Na quarentena, acompanhar a rotina dos outros pode causar ‘invejinha’

O isolamento social intensificou a relação entre quem sente inveja e quem é invejado, principalmente nas redes sociais

Gilberto Amendola, O Estado de S. Paulo

28 de agosto de 2020 | 05h00

A quarentena do vizinho é sempre mais verde. Talvez pareça também um tanto mais confortável, divertida e segura. Acompanhar a vida alheia durante a pandemia, principalmente por meio das redes sociais, pode nos causar um sintoma difícil de admitir: a inveja

Felizmente, a engenheira Fabiane Rodrigues, de 41 anos, não tem problema com isso. Ela consegue aceitar uma certa “invejinha” da vida que um conhecido tem levado nesse período. “Ele está em uma praia na Costa Rica. Ele está surfando, tocando violão e, acredito, no meio de um período sabático”, disse. 

De fato, a quarentena do conhecido da Fabiane é de causar inveja. O publicitário Leonardo Nicolia, de 41, está vivendo desde março em uma praia de Santa Teresa, na Costa Rica. Até o dia 24 de agosto, o país havia registrado 362 mortes pelo coronavírus – os índices de contágio são considerados um dos mais baixos da América Latina. Além disso, em Santa Teresa, são poucas as restrições para quem mora na praia. 

“Cheguei por aqui no dia 13 de março. No dia 15, as fronteiras foram fechadas. Eu fiquei preso no paraíso”, brincou Nicolia. “Surfo todo dia, toco violão, montei uma banda, faço ioga, perdi 5 quilos...Tenho trabalhado daqui. Não pretendo voltar para o Brasil tão cedo. Decidi aceitar esse presente da vida”, completou.

Privilégio

Em seu Instagram, Nicolia posta registros desse privilégio. Claro, como não podia deixar de ser, os registros, às vezes, provocam comentários que podem esbarrar nela, na inveja. “No começo, ficava até reticente em postar. Mas, com o tempo, também veio uma outra resposta. Quando eu posto um pôr do sol na praia, abre-se também uma luz no fim do túnel para quem está vendo”, afirmou.

A situação de Nicolia pode ser considerada bastante específica. Mas o sentimento de inveja (ou “invejinha”) também pode surgir em momentos muito mais prosaicos, como durante uma reunião de trabalho pelo Zoom. “De repente, na tela do computador, apareceu uma lareira de verdade. A pessoa tem uma lareira de verdade em casa. Naquele momento, senti inveja do isolamento social alheio”, disse uma advogada, que preferiu não ter o nome publicado por motivos de “admissão de inveja”. 

Pandemia acentua sentimento

Para a psicanalista e professora da Casa do Saber Rio, Sandra Niskier Flanzer, a inveja é um fato clínico inevitável. “O sujeito, tal como concebido pela psicanálise, é atravessado pela inveja. A inveja é bíblica, muito presente nas relações fraternais”, disse. Segundo Sandra, essa inveja “é a suposição no outro daquilo que não se tem – e de que em algum lugar existe alguém inteiro e feliz”.

“Como Freud e Lacan ensinaram, ninguém é inteiro, não existe a felicidade total, mas manifestações episódicas de deleite. Projeta-se no outro essa ilusão de completude, de que existe alguém no planeta completamente feliz, porque a dimensão do real, da impossibilidade de felicidade total é insuportável”, completou Sandra. 

Para a psicanalista, a pandemia intensificou essa relação entre quem sente inveja e aquele que é invejado. “O sujeito só se constitui através do olhar do outro, a partir do olhar do outro, e só sabe de si a partir do olhar do outro. Quase tudo, para o sujeito moderno, passa pelo olhar e, com a pandemia, isso se intensificou. Agora, esse olhar é praticamente a nossa única via de acesso ao mundo”, disse. “O sujeito exibe suas fotos nas redes sociais, buscando, através do olhar do outro (de aprovação e admiração), a felicidade completa. Mas o que vem junto com esse olhar do outro é a desconfortável inveja – que, não à toa, recebe esse popular nome de ‘mau-olhado’. O olhar que tanto queremos também comporta um ‘mau olhar’, não há como separar”, completou.

O neurocientista e psicanalista Fabiano de Abreu acredita que, durante a pandemia, a dificuldade de encontrar satisfação pessoal pode provocar sentimentos de inveja. “Na verdade, a gente não se pode permitir ter inveja do outro. É a manifestação da falta de satisfação com a nossa própria vida. Não existe inveja boa. É um sinal de que está faltando algo”, disse. 

Segundo ele, em tempos de quarentena, passamos muito tempo pensando na vida dos outros. “Nós somos uma necessidade de compensação. Enquanto conquistamos coisas, estamos liberando neurotransmissores da compensação. Isso não acontece no momento em que as pessoas estão em casa, sem suas conquistas pessoais e profissionais.”

Revolta

Isabel Marçal, cofundadora e presidente do Instituto Bem do Estar, apontou uma variante, um sentimento que muitos nomeiam de inveja, mas que, na verdade, é revolta. “Vejo mais revolta do que inveja. Uma pessoa que está há mais de 100 dias trancada em casa pode ver a ostentação do outro na pandemia como algo que exacerba nossas desigualdades. Existe também a polarização do País, a vontade de ditar o que é correto neste momento ou se deparar com negacionismos da ciência também pode causar revolta”, ponderou. 

Isabel aposta na desconexão (das redes sociais) como uma forma de escapar da inveja ou da revolta. “A gente tem que praticar momentos de desconexão das redes sociais. E prestar atenção em como são nossas interações virtuais. Não paramos para pensar no que estamos sentindo nas redes, se isso nos serve, se devemos continuar seguindo certa pessoa ou o ideal fazer uma ‘limpa’.”

O psiquiatra Davi Urias Vidigal, autor do livro Quem Mexeu na Minha Deprê, afirma que não podemos negar a inveja, mas é preciso tentar trocar a inveja pela admiração. “A admiração serve de estímulo. Ela pode ser um combustível para a pessoa melhorar em todos os aspectos. Já a inveja causa patologia psiquiátrica e adoece o invejoso”, diz.

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