Na praia em Beagá

A capital de Minas pode não ter mar. Mas pode se orgulhar de ter tido praia

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

05 Junho 2018 | 02h00

Repetitivo que nem roda-gigante (esta é velhinha, admito), vivo dizendo que Belo Horizonte melhorou muito depois que me mudei de lá, faz quase meio século. Nem a minha mãe, se viva fosse, diria o contrário. Tampouco meu pai, ambientalista que ajudou a cidade a se cobrir de verde. O dr. Hugo e a dona Wanda foram me levar à sórdida rodoviária de então, para 10 horas de estrada ruim, longe ainda de ser duplicada. Viagem muito menos confortável que a de Otto Lara Resende quando se mandou para o Rio de Janeiro, em janeiro de 1946. De mala, cuia e bigodinho, ornamento facial de todo moço de seu tempo, Otto saiu pelo aeroporto da Pampulha, imagino que num DC-3, veterano da guerra terminada um ano antes.

Sou tão antigo que voei num desses, na minha estreia aeroviária, aos 5 anos de idade. Na pista, o avião era um cachorro assentado nas patas traseiras, focinho rombudo farejando osso nas alturas. Entrava-se por uma portinhola junto à cauda, e lá dentro se avançava por um plano inclinado entre as fileiras - uma poltrona de um lado, duas do outro.

Não sei se ali cabiam 20 passageiros. A aeromoça (quase escrevo enfermeira) distribuía chumaços de algodão e pastilhas para proteger os ouvidos da pressão e do fragor dos dois motores. Os sacos para enjoo não eram meros figurantes na bolsa à frente do passageiro. Impossível não lembrar o que disse certa vez o ex-governador mineiro Milton Campos a uma comissária que o flagrou agoniado. O senhor está sentindo falta de ar?, preocupou-se a moça - e ele: Não, minha filha, falta de terra...

Aviãozinho espartano, aquele DC-3 em que o Otto bateu asas, ainda assim preferível ao ônibus que me trouxe para São Paulo, 24 anos mais tarde. Quando perguntei por que tinha deixado Belzonte, ele fez graça, respondeu que não sabia - e acrescentou: acho que foi o preço da passagem da Panair, 220 cruzeiros. Não sei quanto meus pais pagaram para me embarcar, mas não esqueço o abafamento moral e a falta de horizontes mais que belos a me expelir de onde nasci. O panorama hoje é outro. Vai ver que era mesmo eu que estava atrapalhando.

O que importa é que aos poucos me reconciliei com Beagá, aonde tenho ido com insistência e gosto. (Não carece me puxar as orelhas, estou informado de que há muito é cafonice dizer Beagá, tanto quanto chamar de Sampa a capital paulista.) Amigos meus que moram lá dizem que meus louvores à terra são coisa de quem chega com bilhete de volta.

Não creio. Nem por isso ando pensando em “regredir a Minas”, como dizia ter feito o jornalista, escritor e minerador de talentos literários João Etienne Filho, um que saiu e voltou. “Eu não mereço”, disse o Otto quando, nos anos 80, se orquestrou, sem êxito, um retorno de escritores e artistas a Minas Gerais. Como ainda não me ofereceram o governo estadual, vou ficando onde estou. Se oferecerem, aí é que não vou mesmo. Em todo caso, já cansei amigos e desafetos com a declaração de que sou mineiro não praticante. 

Não acredite. A frequência com que tenho escrito sobre a minha terra vai desmoralizando o rótulo que galhofeiramente me atribuí. Ando mais praticante do que muitos lá estabelecidos, lembrou-me um amigo no velório do Audálio Dantas, dias atrás. Fiz um livro inteiro, O Desatino da Rapaziada, sobre coestaduanos dados a escrever. E hora dessas me animo a desovar mais um, esse exclusivamente sobre Belo Horizonte e que deverá chamar-se Praia de Mineiro. A menos que malbarate um bom assunto, daí sai coisa divertida. A começar por essa obsessão marítima dos mineiros, inconformados que somos com a nossa condição - maldição? - mediterrânea.

Não exagero. É bem obsessão. Foi sobre o mar o primeiro poema publicado do adolescente Hélio Pellegrino, que em matéria de vastidões aquáticas não conhecia mais do que a represa da Pampulha. “Dizem que Minas já teve mar”, escreveu Herbert de Souza, o Betinho: “O lugar está lá, só falta a água”. Que falte, deu de ombros a moçada que num dia de 1977 decidiu dotar de praia, sim, praia, o bairro belo-horizontino do Prado.

“Das construções vizinhas, eles trouxeram areia e, de suas casas, baldes de água”, registrou a Veja. “Em pouco tempo o local estava tomado por moças e rapazes com roupas de banho, óculos escuros, bronzeadores e guarda-sóis.” Legenda da foto: “Em Belo Horizonte: guarda-sol no asfalto”.

A “praia do Prado”, disse à reportagem o líder da extravagante iniciativa, no auge de seus 19 anos, foi uma forma de chamar a atenção para o fato de existir muita gente que “não quer ficar em casa vendo televisão, nem tem dinheiro para ir até a represa da Pampulha, ou disposição para enfrentar a superlotação dos fins de semana do Parque Municipal”. O mesmo parque, aliás, em que transcorre a cena inicial do romance O Amanuense Belmiro, de Cyro dos Anjos, na qual, numa roda de chope, alguém declara ser aquela Belo Horizonte dos anos 30 “uma cidade besta”. Não há aonde ir, reclama - e outro minimiza: “Em Paris é a mesma coisa”.

Em 1977, os personagens do clássico de Cyro dos Anjos teriam tido a alternativa da praia do Prado, no cruzamento de Safira e Turquesa, bem nas barbas do vigário da igreja do Santo Cura d’Ars. A farra durou apenas três semanas, tempo que a polícia levou para chegar lá, mas sobrevive como feito, talvez inédito, e não somente na nostalgia de uns banhistas do asfalto hoje sessentões: que outra cidade tem ex-praia para exibir ao visitante? 

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Belo Horizonte [MG]

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