Na poesia do movimento, beleza, emoção e leveza

De novidade tecnológica aplicável apenas a blockbusters milionários, o 3D começa a ingressar no circuito de arte. Já tivemos há pouco A Invenção de Hugo Cabret, de Martin Scorsese, com suas 11 indicações para o Oscar e sua fábula infantil de homenagem a Méliès, pioneiro do cinema de invenção. Chega agora Pina, do alemão Wim Wenders, um filme homenagem, analítico e emocionante sobre grande bailarina e coreógrafa Pina Bausch (1940-2009).

O Estado de S.Paulo

18 de março de 2012 | 03h11

A primeira coisa a ser dita sobre o filme é que usa o recurso das três dimensões com muita parcimônia. Ou seja, Wenders não faz do avanço técnico um fetiche que acabaria por encobrir o conteúdo. O que ele tem a dizer vem em primeiro lugar; a técnica ajuda porque a ele é subordinada. O resultado é que a utilização sóbria realça o poder da tecnologia, pois a coloca em seu devido lugar, a serviço do homem. Essa é a disposição humanística de Wenders, em consonância com o tipo de homenagem que deseja prestar à sua conterrânea.

Em segundo lugar, mas não menos importante, cabe destacar que o cineasta alemão não faz uma cinebiografia convencional, com amplas informações sobre a personagem e muitos depoimentos. Talvez a trajetória de Pina seja muito interessante, mas quem a deseja em detalhes pode dar uma conferida no Google. O cineasta prefere, ao contrário, destacar o trabalho e o modo de criação de Pina, mais do que os acontecimentos da sua vida real. Monta uma sequência coreográfica e musical narrada como se fosse uma história, não da personagem em si, mas da própria humanidade, com suas aspirações, grandezas e fraquezas. Acima de tudo, com sua capacidade de produzir beleza em seus elementos de vida cotidianos. Pina aparece com frequência, mas o destaque é mais para as ideias que colocou em prática do que sobre a sua pessoa. Não há nada ali que esteja fora da dança.

Portanto, quem comanda o filme é a veia inventiva de Pina Bausch, uma coreógrafa que sabia tirar poesia do movimento e de elementos como a pedra, a água, o abismo. Daí o caráter visceral de sua dança, uma arte que atravessa idades e nacionalidades. Há uma leveza extraordinária na maneira como os corpos em movimento desenham o que seriam as ideias da coreógrafa, produzindo sentidos, ou melhor, sensações, nem sempre conscientes. Pensada dessa maneira, a dança de Pina não deixa de ser um estímulo poderoso para a imaginação, uma via aberta para o inconsciente e uma prática de liberdade.

No elenco multinacional (Pina era universal, trabalhava com todas as nacionalidades e com nenhuma) há espaço também para o Brasil, na figura de uma das dançarinas e na canção Leãozinho, de Caetano Veloso, usada na coreografia Água (2001). Beleza, emoção, leveza são os termos que poderiam definir esse filme.

Crítica: Luiz Zanin Oricchio

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