Na peça <i>Os Leões</i>, a harmonia de gestos e palavras

A julgar pela qualidade do espetáculo Os Leões, da Cia. Armadilha, valeu o investimento no projeto Novos Repertórios que uniu no mesmo espaço - um auditório da Universidade Federal do Paraná - esta e outras três companhias curitibanas que têm como objetivo comum levar ao palco textos de autores contemporâneos. Para participar do Fringe, a mostra paralela do festival, sem perda da qualidade de seus espetáculos, eles se inscreveram na mostra, mas escolheram seu próprio espaço. "Saiu caro, além de pagar para participar tivemos que alugar refletores, equipamento de som, para adequar nossas montagens ao espaço da faculdade", diz a produtora Michele Menezes. Assim, não se submeteram ao monta-e-desmonta de cenários caracterísitico dos teatros do Fringe que abrigam muitas peças no mesmo local, a maioria deles pouco equipados. "Trabalhamos com os melhores iluminadores da cidade, a luz é fundamental em nossas montagens, não queríamos apresentar o espetáculo de um jeito precário."CotidianoCom texto do espanhol Pablo Miguel de la Vega Y Mendoza traduzido e adaptado por Diego Fortes, Os Leões flagra dois homens, que dividem o mesmo apartamento, num cotidiano aparentemente prosaico. Enquanto se vestem ou preparam um café, lêem ou ouvem música, eles falam sobre a existência, os vizinhos, os sonhos que tiveram à noite. Mas é só aparência. O tempo e as questões existenciais mais profundas são o tema dessa peça muito bem dirigida por Nadja Naira que encheu o palco de pequenas ações físicas - como a procura de um livro ou de uma gravata. Direção que contribui para a segurança dos intérpretes e, sobretudo, para recriar cenicamente a atmosfera de estranheza proposta pelo texto. Há uma harmonia entre gestos e palavras fundamental para reproduzir na cena a idéia de um tempo cíclico e não linear, que se repete em espiral. É excelente a atuação de Alexandre Nero e Diego Fortes. Contidos na medida certa eles levam o espectador a compartilhar suas perplexidades e emoções que expressam de forma clara, intensa, porém sutil, sem em nenhum momento despejá-las sobre o público. Um espetáculo de surpreendente qualidade na cena curitibana. (A repórter viajou a convite da organização do festival)

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