Na onda do iê-iê-iê

Ortinho define novos rumos para sua carreira com o CD Herói Trancado

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

13 de novembro de 2010 | 00h00

Está no ar uma nova onda de iê-iê-iê, um jeito criativo de abordar o pop romântico (também conhecido como brega ou cafona), originário da turma da jovem guarda. Ao lançar seu impecável álbum de 2009, Arnaldo Antunes, com o reforço do guitarrista Fernando Catatau, abriu as comportas para seus parceiros Marcelo Jeneci e Ortinho - o primeiro ligado por laços familiares a Pernambuco e o segundo, natural da mesma terra de Reginaldo Rossi, um dos herdeiros musicais de Roberto Carlos. Depois do sensacional álbum de estreia de Jeneci (Feito pra Acabar), agora é a vez de Ortinho definir novos rumos para sua carreira em Herói Trancado (independente), no mesmo patamar de seus parceiros.

Vértice de uma nova tríplice aliança das mais produtivas, Ortinho, não por acaso, participou de um tributo a Rossi em 1999, com sua ex-banda Querosene Jacaré. O compositor e cantor de Caruaru vem de um movimento gradual de aproximação ao pop-rock romântico. A ligação com o mangue-beat, notável no primeiro CD, Ilha do Destino (2002), já diminuiu em Somos (2006), que tinha dois bons exemplares jovem-guardistas: Cirandagem e Avenida Norte.

"Desde o primeiro disco eu já tinha essa veia musical pro lado romântico, mas ela não estava muito definida na minha cabeça ainda. Meu primeiro disco foi muito experimental, com coisas muito regionais misturada com rock, pela minha trajetória musical", lembra Ortinho. "No segundo eu já estava me desvinculando dessa necessidade regionalista, já partindo para o rock romântico."

Ortinho une diversos laços dessa trajetória no novo CD com a participação de Arnaldo Antunes e músicos das bandas pernambucanas Nação Zumbi (Jorge Du Peixe e Dengue) e Mombojó (Vicente Machado) e a recriação de Você Não Sabe da Missa Um Terço, canção que dava título ao álbum do Querosene Jacaré de 1998. Com o show de lançamento de Herói Trancado, hoje ele divide a noite do Festival Conexão PE 2010, no Auditório Ibirapuera, com o Mombojó.

Influência de Arnaldo. A primeira colaboração com Arnaldo (mais Antônio Risério) foi O Engano do Humano, com participação do parceiro no vocal, no primeiro disco. O reencontro em Iê Iê Iê - em que os dois assinam juntos A Casa É Sua, Coração e Envelhecer, esta também com Jeneci - foi determinante para a decisão de Ortinho. "A parceria com Arnaldo entrou muito forte. Quando começamos a fazer as músicas de Iê Iê Iê eu estava na busca de um estilo musical que se aproximasse mais do que eu queria, não uma fórmula, mas um formato para essas músicas. Arnaldo foi um mestre pra mim, abriu minha cabeça para essas possibilidades, para essa tendência musical e também Jeneci, com sua linha melódica".

Os três assinam duas parcerias no disco de Ortinho - Pense Duas Vezes Antes de Esquecer e Café Com Leite de Rosas, que Jeneci gravou em Feito pra Acabar com arranjo, interpretação e andamento completamente diferentes. Com o psicólogo Mauro Fini, estreante como compositor, o pernambucano e Arnaldo assinam Retrovisores. As demais são só de Ortinho.

Pense Duas Vezes Antes de Esquecer era para ser o título do CD, mas ele achou mais forte Herói Trancado. É a história de um cara que "acabou preso pela própria liberdade", mas há aí uma brincadeira com o nome do personagem (Trancado) de um filme de Simião Martiniano, uma figura do cinema regional que vive no camelódromo do Recife vendendo cópias de seus filmes produzidos em VHS.

Das "grandes histórias que Otto cria" veio o mote para Café Com Leite de Rosas. "Numa certa época ele estava em busca de samba e começou a frequentar umas favelas do Recife, e descobriu que o pessoal no presídio, na falta de drogas, tomava café com o desodorante Leite de Rosas pra ficar doidão. Achei muito interessante a junção dessas duas coisas, mar pela parte poética dessas palavras."

A produção do CD é do versátil guitarrista Yuri Queiroga, que também dá o tom da sonoridade do disco com seu instrumento. "Fizemos uma pré-produção antes de gravar, ele criou muita coisa de arranjo, a gente já veio, vamos dizer, como uma explicação da música para quem entra, porque dou muita liberdade para quem vai tocar e para os convidados." Um bom exemplo é Vicente Machado, que além do Mombojó trouxe a carga do Del Rey, banda paralela que interpreta só canções de Roberto Carlos, da fase em que ele era o Brasa, mora?

MOMBOJÓ E ORTINHO

Auditório Ibirapuera. Av. Pedro Álvares Cabral, s/nº, portão 2 do Parque do Ibirapuera, 4003-5588. Hoje, 21 horas. R$ 30 e R$ 15

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