J.F. Diorio/Estadão
J.F. Diorio/Estadão

Na obra de Fernando Zarif, o caos aliado ao sentimento de urgência

Processo de criação do artista parecia não passar pelo campo das ideias

Bia Lessa e Maria Borba, Especial para o Estado

12 de fevereiro de 2014 | 16h20

De cara, a casa repleta de trabalhos de todas as formas, tamanhos e naturezas (telas, objetos de todo o tipo, matérias-primas), e em todos os lugares: no hall de entrada, pelo chão, pelas paredes, estantes, corredores, na bancada do banheiro, sobre a mesa... Tínhamos que tomar cuidado enorme ao caminhar, para não pisar nem encostar em nada, e isso era uma delícia.

Junto aos trabalhos, espalhados por todo o canto, milhões de CDs sem capa empilhados um sobre o outro, vinis aos montes, encostados ao pé de uma estante gigantesca, livros - abertos, fechados, rasgados, sublinhados, sujos de cinza de cigarros. Era um caos, no melhor sentido da palavra, uma bagunça pulsante, visceral. Tudo aquilo junto, daquele jeito - era ele.

A porta do apartamento sempre aberta. Costumávamos ir depois do teatro, e ficávamos muitas vezes até a manhã seguinte. Os livros eram lidos aos fragmentos em voz alta, os trabalhos revelados em meio ao vaivém entre os cômodos. As pessoas iam chegando aos poucos, espalhavam-se em grupos por diferentes espaços. E ele transitando por tudo, o tempo todo. Lia, cozinhava (como ninguém!), mostrava as novidades da última viagem com um humor e uma exuberância imbatíveis. E ríamos juntos, ríamos muito.

Pois Zarif era tudo isso junto e misturado - artista e pessoa à imagem e semelhança do ambiente descrito acima. Tudo isso com muita alegria, senso humor, generosidade e uma capacidade incomum de tocar a alma humana, com amor, com o coração.

Nunca nos esquecemos de um dia, muitos anos atrás, em que a Maria resolveu consultá-lo para um trabalho de escola sobre o Renascimento. Foi duro anotar a torrente ideias, pensamentos, informações, que jorravam dele aos borbotões. Cuspido assim, de supetão, na brevidade de um telefonema, o trabalho estava todo ali, prontinho, com capa e tudo: uma imagem da Monalisa, com um pedaço de papel manteiga colado na lateral, que podia ser movimentado sobre a imagem como a página de um livro. Ah, sim! Não podia faltar o bigodinho do ready-made de Duchamp, desenhado a lápis, trasncriação da transcriação.

Mais do que a excelência, é difícil traduzir em palavras convincentes o caráter brutal sua obra, a celeridade, a rapidez de flash com que era capaz de criar uma peça atrás da outra. Tudo o que via, qualquer material que lhe caísse nas mãos, podia ser transformado, num átimo, em um desenho, um ready-made, uma pintura, uma assemblage, uma escultura, uma letra de música. E de uma sofisticação impressionante - que denunciava ao mesmo tempo erudição, domínio técnico e um toque inconfundível de humor.

Uma taça quebrada, caixinhas de presentes da Tiffany's, um pedaço de pano, um molho de chaves, tudo servia gatilho para a criação. Se não estivesse com lápis, carvão, tinta ou pincel, não tinha problema, usava o que estivesse à disposição - cola, pasta de dente, band-aid, arame, luvas cirúrgicas, o que fosse, incluindo mostras do próprio corpo (pedaços de unha, tufos de cabelo, pelos, sangue).

Um processo de criação que parecia não passar pelo campo das ideias. Era como se tudo estivesse, desde sempre, dentro dele, prontinho, como aquele trabalho de escola. E, de repente, num ímpeto irrefreável, precisasse ser expelido a qualquer custo, onde quer fosse e com o que quer que fosse. Um mecanismo quase fisiológico.

Um processo de criação onde o instante determinava a obra. Traços firmes nunca retocados, colagens jamais refeitas. Instante que se faz presente em cada trabalho, e que se fez presente na forma como escolheu viver.

Bia Lessa e Maria Borba são encenadoras e dirigem a performance que marca o lançamento do livro no MAM do Rio de Janeiro

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