Na noite da soprano, venceu o tenor

SALZBURG

João Luiz Sampaio SALZBURG, O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2010 | 00h00

Há dois anos, o festival resolveu produzir uma montagem do Romeu e Julieta, de Gounod, especialmente para o par sensação do momento - a soprano Anna Netrebko e o tenor Rolando Villazón. Grávida, ela acabou cancelando sua participação, sendo substituída por Nino Machaidze. Este ano, ela voltou a Salzburg para cantar na produção - mas agora sem Villazón, que ainda se recupera de problemas vocais que o deixaram fora dos palcos ao longo das últimas duas temporadas. Em seu lugar, entrou o tenor Piotr Beczala.

A voz de Netrebko, catapultada para a fama nos últimos anos, está mudando. Mais escura e encorpada, já soa em alguns momentos pesada demais para o papel de Julieta.

Ainda assim, a projeção, a desenvoltura cênica e a expressividade levam a momentos vertiginosos na interpretação, como a cena do quarto ato em que a personagem resolve tomar o pretenso veneno fornecido por Frei Lourenço. Surpresa mesmo, porém, foi a atuação do tenor Piotr Beczala - seguro cenicamente, tem um timbre muito bonito e, acima de tudo, expressivo, rico em coloridos em toda a extensão da voz, do grave aos agudos.

A produção de Bartlett Sheer articula relações com o Tristão e Isolda, de Wagner, em considerações sobre o conceito de tragédia e o flerte entre amor e morte ao longo do período romântico. A consequência é uma leitura limpa, sutil, que diminui o contexto social e coloca no sentimento dos amantes todo o foco, transformando a ópera de Gounod em um longo dueto.

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