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Na montanha russa

Belas ou farpadas, não importa: são boas de ler as crônicas de Hilda Hilst

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

26 Junho 2018 | 04h00

Tento imaginar o que era, para o leitor do Correio Popular, de Campinas, a aventura de abrir seu jornal de domingo e se deparar com coluna de Hilda Hilst. Significava, no mínimo, embarcar numa montanha russa - só que imprevisível: o que lhe reservara ela desta vez? Podia ser um belo e delicado poema, quase sempre garimpado nalgum de seus livros para encher o espaço em dia de pouca ou nenhuma inspiração. Mas podia ser também um tranco daqueles, sob a forma de uma prosa empapada de provocações nem sempre sutis, apimentadas, não raro, com as palavras mais cruas, dessas que nunca saem num jornal, e arrematadas, algumas vezes, já que era domingo, com votos de “boa missa”.

Tento imaginar, também, como reagia o editor do Caderno C do Correio Popular quando o fax despejava em sua mesa aquela quota semanal de imprevisibilidade. Eu gostaria, aliás, de saber como foi que Hilda Hilst veio a ser colaboradora do Correio Popular ao longo de mais de dois anos, de novembro de 1992 a julho de 1995.

Com certeza estava ela, uma vez mais, precisada de dinheiro. Pois gosto por escrever crônica Hilda não tinha, e disso não fazia segredo: “É um verdadeiro martírio para mim”, desabafou um dia, “porque de alguma forma tem que se aproximar de um texto ‘arrumadinho’, um texto que todos entendam”. Com ela, não era assim. Nada de concessões, de salamaleques. “Uma das coisas que mais me chateiam nisso de escrever crônicas”, deixou claro, “é a quase obrigação de ser sempre pra cima, vivaz, alegrinha, ou então estar sempre em dia, na crista, notícias cintilantes...” E baixou a borduna: “Ser sempre interessante como se todos fossem inteligentíssimos, profundos, finos, cultos, delicados...”.

Ao contrário de seus pares, a cronista Hilda não parecia nem um pouco empenhada em agradar, e muito menos em paparicar o destinatário de sua prosa de jornal - ao contrário, procedia como se apostasse numa relação de sadomasoquismo, não hesitando em desfechar ironias - “Machucou-se, leitor? Escandalizou-se, leitor? (coitaaado!)” -, quando não catiripapos: se você não entendeu, problema seu, “informe-se”.

Devo gostar de apanhar, pois estou me regalando na leitura das crônicas de Hilda Hilst, que por inadvertência deixei de ler no varejo, na época em que pingavam nos domingos campineiros. Uma primeira seleta, Cascos & Carícias, saiu em 1998, teve edição aumentada em 2007, três anos após a sua morte - e agora voltou a crescer, às vésperas da Flip 2018, que tem Hilda como homenageada.

São 132 crônicas, 72 a mais que na versão inicial. Ali transparece, inteira, exuberante, aquela que uma vez chamei de minha amiga heavy metal, capaz, por exemplo, de deliberadamente provocar engulhos sob o título “Boas maneiras”, ao sugerir a frieira, sim a frieira, como tema de conversação à mesa do jantar. Ou de relatar a história da mulher que matou o marido a “pinicadas”, ou seja, a golpes de penico, e de em seguida anunciar seu propósito de brandir a mesma arma para esbordoar o coco de banqueiros e editores.

A cronista pula de assunto para assunto a qualquer pretexto, ou a pretexto nenhum. Se lhe falta inspiração ou paciência, não hesita em ocupar o espaço, às vezes o espaço inteiro, com poesia e prosa catados em seus livros, e até em livro alheio. Volta e meia, sobe-lhe a fervura da indignação cívica, e Hilda se põe a fustigar políticos envolvidos em gatunagem. Os deletérios “Anões do Orçamento”, aqueles deputados que rapinaram cofres públicos nos anos 90, para ela nada têm de anões: “Gigantes Pantagruélicos do Saque, isso sim!”. Escaldada, ela não se ilude, pois se “na paixão o milagre acontece, na política, não”. E crava profecia sem data de validade: “Haverá pizza para todos os paladares e parlamentares”.

O que resta, nessa paisagem teratológica, ao cidadão de bem? Hilda propõe a criação de um “Exército Geriátrico de Extermínio”, integrado por “senhoras da terceira idade”, ela inclusive, as quais, munidas de “bengalinhas” em cuja extremidade haverá “uma ponta-estilete besuntada de curare”, para, “nos comícios, nos palanques, nas Câmaras, no Senado”, espetar “as perniciosas nádegas ou o distinto buraco malcheiroso desses vilões”.

O espetáculo humano, e não só na política, lhe parece tão horrendo que Hilda a certa altura faz saber, exasperada: “Gente, por favor, não quero mais ser gente!”. Nem o Criador escapa, pois ela não se conforma “com isso de um deus mandar seu filho para o planeta Terra a fim de ser crucificado”. E argumenta: “Para nos salvar, me ensinaram. Mas nós não fomos salvos de nada! Continuamos os mesmos estúpidos paranoicos (é só ler a História) em direção à loucura, ao pânico, ao desespero”.

No fio dos domingos, Hilda vai para cima de quem maltrata mendigos e animais, machistas em geral, editores que lhe pagam pífios direitos autorais e leitores que se obstinam em ignorar a sua obra. Neste particular, por um momento, a atividade de cronista até que lhe parece ser reconfortante: “Tão poucos leram ou compraram meus livros... mas agora com essas crônicas... que diferença! Como telefonam indignados para o por isso eufórico editor deste caderno, dizendo que sou nojenta! Obrigada, leitor: por me fazer sentir mais viva e ainda por cima nojenta! Isso é tão mais, tão mais que nada!”.

Se cessam as reclamações, é Hilda quem reclama: “Ninguém mais me trata mal” - e encena um ressentimento: “Só recebo cartas dizendo que sou um primor, uma rosa, uma orquídea rara, um Nobel, um Pégaso, até um jabuti, e toda vitimologia que construí com esmero, acuidade, pertinácia ao longo da vida, vai fenecendo como lebre arredia, famélica e assustada”. E se desfaz em sarcasmo: “Ah! Mandem de novo aquelas missivas tão graciosas e educadas me chamando de louca, de velha lunática, de pinguça, de porca, fico tão excitada...”.

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