Na medalha, o que conta é a figura

Há autores que primeiro vivem,depois escrevem e pode ser que no processo inventem umpersonagem mais ou menos correspondente à realidade. HenryMiller é um deles, Jean Genet é outro. Lautreamont e Rimbaudfizeram as duas coisas ao mesmo tempo. O primeiro teve a sortede morrer logo e o segundo a genialidade de parar de escrever.Depois, suas imagens se transformam em clichês, ou seja,simulacros que podem ou não ser repetidos infinitamente, deacordo com as tendências do mercado. Ficam as imagensfantasmagóricas, que muitas vezes funcionam, sobretudo numacultura dominada por espectros onipresentes. Baudrillard? Sim, mas também Machado de Assis. Existe umconto dele no qual um pai consciencioso, preocupado com o futurodo filhote que acabara de completar os 21 anos, lhe dá umasinstruções para que não se perca nesta vida. O pai, conhecedordas coisas deste mundo, faz uma preleção para o jovem com todasas dicas úteis. A principal é que não deve ter idéia nenhuma, ofundamental não é ser e sim parecer inteligente, culto,brilhante, sério, tudo, até trabalhador, até honesto. É omedalhão, que todo mundo conhece, pelos diversos processos dereprodução da imagem. O poeta Emílio de Menezes tem uma piada sintética, com amesma lição. Certa vez, dizem, ele estava numa confeitaria ou oque valha, no Rio de Janeiro, expondo em cima da mesa um livroem alemão. Pálido de espanto, alguém lhe disse: "Emílio, euignorava que você soubesse alemão." O poeta ágil das rimashumorísticas respondeu que não sabia mesmo, o ponto se resumianisso: no que as pessoas pensariam, etc. Esse é um lado da medalha, o lado, digamos, positivo.Porque, dependendo das ondas da praça, o contrário dessa medalhaé que funciona. Um escritor brasileiro bastante conhecidogostava de dizer que literatura não tinha importância, o quecontava era a vida. Pode-se até concordar, mas por que eleescrevia, e o pior, publicava bons livros?

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