Na Holanda, ricos vão à feira comprar arte

Imagine um lugar onde as mais poderosas galerias de artes e antiguidades do mundo se reúnem para vender o que têm de melhor. E onde, por extensão, os compradores são colecionadores particulares europeus, americanos e japoneses, na maioria, e também museus e fundações de arte. Esse lugar é Maastricht, no sul da Holanda, uma simpática cidade medieval católica de 120 mil habitantes, próxima às fronteiras de Bélgica e Alemanha. Aqui, no coração flamengo do Velho Continente, foi não por acaso o local escolhido para assinatura do tratado que estabeleceu a União Européia ha 15 anos. O evento se chama Tefaf (The European Fine Art Foundation) e nesta sexta-feira, 9, ocorre a abertura oficial de sua 20.ª edição, com ingressos a 50 euros. Na quinta, o pavilhão com cerca de 220 estandes foi aberto para jornalistas e convidados, entre os quais estão os decoradores brasileiros Sig Bergamin e Jorge Elias. A sensação é a de visitar um museu de obras que quase nunca vieram a público e que vão desde a China Antiga - representada pela escultura de um tapir em bronze e ouro, do século 4 a.C., à venda por 9 milhões de euros - até artistas com obras recentes, como Roy Lichtenstein (Yellow Cliffs, de 1996) e Manolo Valdes (Dois Perfis, de 2006). Por sinal, arte tradicional do Oriente e arte contemporânea do Ocidente estão em alta na feira. Estima-se um público de 80 mil visitantes até o encerramento, no dia 18. Metade da área é ocupada por artes decorativas. Jóias, móveis, artesanatos e também livros raros são negociados intensamente. Mas a reputação da feira ainda se baseia nos estandes que vendem Old Masters, os grandes mestres da pintura e escultura; foi com essa intenção que uma cooperativa de marchands e galeristas a fundou. O evento cresceu rapidamente e em outras edições já se venderam obras de Rembrandt e Michelangelo com preços recordes. Depois das casas de leilões Sotheby´s e Christie´s, este é o principal ponto de aquisição de grande arte. Hoje há fila de espera de interessados do mundo todo. Da América do Sul, apenas uma galeria argentina tem lugar aqui, a dos irmãos Eguiguden. Não há estandes nem artistas brasileiros na Tefaf. "Mas já tivemos colecionadores brasileiros adquirindo obras aqui", conta Graciela Lohman, assessora para a América Latina. "Mas não podemos informar os nomes." Entre os exemplos de Old Masters à venda neste ano, está o Massacre dos Inocentes, de Pieter Breughel, o Jovem, no estande da holandesa Johnny Van Haeften por preço não divulgado. A tela, dos anos 1560, mostra o assassinato de crianças numa paisagem do inverno flamengo, com muitos detalhes da crueldade e também cômicos, como um soldado de armadura que faz xixi em uma parede. Outro destaque é uma pequena pintura a óleo de Goya, Cena de Escola, de 1777, em que crianças apanham do professor e a legenda diz, em espanhol, "a letra com sangue entra"; são 3 milhões de euros na madrilenha Cauly. O terceiro destaque é a última pintura de Jacques-Louis David, A Cólera de Aquiles, de 1825, na londrina Star Sainty, também com preço não informado. Há também quadros de El Greco, Lucas Cranach e Tiepolo, além de gravuras de Rembrandt e Dürer. Um dos mais importantes marchands da seção é Konrad Bernheimer, da galeria Bernheimer-Colnaghi, que na Tefaf já vendeu quadros para museus como a National Gallery, de Washington. "Reproduzimos aqui exatamente a galeria como ela é em Londres e Munique. Todas as galerias trazem para cá o melhor de seu estoque", diz em entrevista a um grupo de jornalistas sul-americanos. Nascido em Munique, de mãe venezuelana, Bernheimer diz que vende o que é de seu gosto pessoal, principalmente obras flamengas do século 17 e francesas do século 18. A feira também surpreende pela quantidade de boas obras do Impressionismo até hoje. Monet, Corot, Degas, Picasso, Matisse, Miro, Modigliani - há muitos exemplares de cada um, quase sempre de alto nível. O mais caro é Entre as Rosas, de Renoir, tela de 1882 que sai por 45 milhões de euros. A galeria inglesa Marlborough oferece um tríptico de Francis Bacon, além do retrato do compositor Schoenberg por Kokoschka. A famosa Wildenstein, de Nova York, trouxe muitos móbiles e até uma pintura de Calder. E a Lablonka, de Berlim, é a mais moderninha, com pinturas de Eric Fischl e fotos de David LaChapelle. A seção dos modernos e contemporâneos era a mais visitada, na quinta, e boa parte dos compradores eram casais jovens e, claro, muito ricos. O repórter viajou a convite da organização da Tefaf

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