Na fronteira entre o gênio e o monstro

Intelectuais brasileiros se dividem quanto à forma de encarar os panfletos produzidos pelo escritor no auge do nazismo

RAQUEL COZER, O Estado de S.Paulo

19 de fevereiro de 2011 | 00h00

Oescritor Milton Hatoum morava em Paris, no início dos anos 80, quando a obra de Louis-Ferdinand Céline passou por uma espécie de resgate, relançada com pompas após décadas de obscuridade. Na ocasião, imprensa e crítica foram unânimes em apontá-lo como um dos maiores autores em língua francesa. "A obra dele demorou a ser reavaliada após a 2.ª Guerra", comenta. Foi com surpresa que o colunista do Estado acompanhou a atual rejeição ao romancista por parte de seus conterrâneos devido à militância antissemita. Hatoum arrisca uma análise: "A visão das artes mudou muito na França. As pessoas estão menos interessadas em literatura; a discussão ficou simplista."

Tanto não é debate simples que o amazonense, admirador de obras como Viagem ao Fim da Noite e Morte a Crédito, não tem o menor interesse em conhecer os virulentos panfletos antissemitas que Céline escreveu entre 1936 e 1941, em plena ascensão nazista. "É evidente que discordo visceralmente da posição dele nesse ponto. Mas também discordo de Borges, que apoiou os militares na Argentina e foi condecorado pelo Pinochet no Chile. E, no entanto, é impossível não lê-lo."

Os panfletos - foram quatro - não são mais editados na França, embora estejam disponíveis para download na internet e possam ser encontrados na Universidade de Paris 7, onde há um centro de estudos celinianos. Pós-doutorada na obra do francês, Leda Tenório da Motta, professora de Comunicação e Semiótica da PUC-SP, vê importância literária inclusive nesses textos. "Os panfletos de Céline são considerados pela melhor crítica francesa como uma fase intermediária, que leva ao auge da obra dele. Ali ele formula em definitivo seu estilo da ira, hiperbólico." O fato de se tratar de convicção pessoal, em vez de representação ficcional, não reduz, para ela, o valor poético, "se for levado em conta o estilo". "São textos mais sombrios que antissemitas. Apesar de carregarem um antissemitismo eminentemente francês da época, carregam também um clamor contra o capitalismo americano, por exemplo."

O tradutor e professor da Unicamp Marcio Seligmann-Silva não vai tão longe na defesa à obra do autor, que pôs no papel frases como "os judeus racialmente são monstros, são híbridos, quistos que incomodam e devem desaparecer" (em Bagatelles Pour Un Massacre, de 1937). Mas faz coro com Leda na opinião de que, ao lado de Proust, Céline foi responsável pela melhor ficção da França do século passado. Seligmann avalia que uma característica não anula a outra. "É fácil dizer que tudo é literatura, mas há momentos em que a escrita se torna apenas política. É preciso perceber os limites."

Para o tradutor, a solução está em manter a tensão entre a admiração pelo gênio e a repulsa ao antissemita. "Entendo que um governo tenha cuidado em enaltecer a memória de alguém que teve essa postura num momento recente da história. A obra de arte não machuca, mas um panfleto pode levar à morte."

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