Na Flip, Toscana fala sobre o livro El Ejército Iluminado

O escritor mexicano David Toscana, que participa da 4.ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), ainda não declarou guerra aos EUA, mas os protagonistas de seu mais novo livro sim. Os soldados de "El Ejército Iluminado", que acaba de ser lançado pela Tusquets, formam uma pequena tropa disposta a recuperar o território do Texas, perdido em 1848 para colonos anglo-saxões. A novela surge justamente na esteira da controvertida eleição do conservador Felipe Calderón, do Partido de Acción Popular, mas Toscana, que não se define nem como esquerdista nem como direitista, jura não ter sido sua intenção a de colocar mais lenha na fogueira da briga fronteiriça com a maior potência mundial, embora, em se tratando de Toscana, nunca se possa saber se ele está sendo irônico.Para provar que não está a serviço dos interesses do Partido de la Revolución Democrática (PRD), opositor de Calderón, e que mantém sua independência ideológica, Toscana ambientou sua novela em 1968, estabelecendo um vínculo nostálgico entre seu "exército iluminado" e os sonhadores das barricadas de Paris, que queriam mudar o mundo com slogans anticapitalistas. Se, em "Santa Maria do Circo" (lançado na Flip pela Casa da Palavra), um bando de freaks circenses funda uma cidade em pleno deserto, criando suas próprias leis, os soldados adolescentes de "El Ejército Iluminado" (prometido pela mesma editora para 2007) parecem condenados ao fracasso desde o primeiro golpe para curar as feridas históricas deixadas pelo roubo do Texas."Tudo o que escrevo é alegórico", diz Toscana, assumindo que a representação metafórica dessa luta para passar em revisão um fato histórico tem o mesmo caráter das críticas que fez contra o racismo, o sexismo e o poder da mídia em "Santa Maria do Circo". O autor mexicano, que tem duas filhas adolescentes, Cristina e Valéria (fã ardorosa do cinema hollywoodiano), está preocupado com a infiltração da cultura americana em seu país. Essa é uma entre as muitas razões que determinaram a escritura de "El Ejército Iluminado". Outra é uma homenagem ao maior nome da cultura hispânica, Cervantes. Ao falar do espírito quixotesco desses adolescentes, dispostos a seguir não um general, mas um professor revoltado, Toscana aproxima os jovens do nobre cavaleiro cervantino, tanto em seu delírio como em sua extrema lucidez.A despeito de toda alegoria, Toscana recusa a herança do realismo mágico latino-americano. Não se julga um seguidor do colombiano Gabriel García Márquez. "O albanês Ismail Kadaré fala de um mundo tão caótico e absurdo como o descrito nos livros policiais de Rubem Fonseca, mas não se espera dele uma filiação ao realismo mágico, por ser europeu".Dessa redução a estereótipo também foi vítima o escritor inglês, de origem jamaicana, Benjamin Zephaniah, que está lançando na Flip seu livro Gangsta Rap, também sobre adolescentes revoltados. No caso, eles não lutam contra os EUA, mas contra a máfia das gravadoras multinacionais, que exploram grupos de hip hop e rap, incentivando brigas entre eles e até contatando brutamontes para provocar confusões em shows. Tudo para dividir fãs e vender mais discos.Zephaniah, também músico de reggae, já gravou disco com a banda de Bob Marley, mas, apesar de rastafari, não quer ser confundido com a imagem simplificadora que fazem deles. Diz que não fuma maconha e, apesar de reconhecer a África como terra-mãe, prefere permanecer na Inglaterra. O escritor, que recusou a Ordem do Império Britânico oferecida por Tony Blair, justificando que o fez em nome dos negros escravizados pelos ingleses, dedicou-se à literatura para disseminar suas mensagens antiimperialistas às crianças negras. "É preciso fazer com que leiam, pois Harry Potter não vai ajudá-las em nada".

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