Na ficção, as estribeiras perdidas do amor

Em 'Divórcio', Ricardo Lísias narra o trauma da separação de Ricardo

MARIA FERNANDA RODRIGUES, O Estado de S.Paulo

03 de agosto de 2013 | 02h17

Ricardo Lísias acorda um dia e se lembra de que tem uma conta a pagar. Ao abrir a gaveta da mulher, encontra o boleto no meio de um caderno. Bate os olhos numa frase e as pernas bambeiam. Reluta, respira, e lê tudo num só fôlego. Fazia apenas quatro meses que os dois tinham se casado. E no diário, na primeira viagem depois da festa, ela escreve: "Eu estou viajando em lua de mel, mas não estou apaixonada. O Ricardo é legal, inteligente e às vezes me diverte, apesar de andar muito. Mas apaixonada eu não estou. Eu não sei o que vai ser quando voltarmos ao Brasil. Eu gosto de ser casada com um escritor. É só esconder certas coisas e pronto. Eu sou uma mulher atraente, não tenho dificuldades para achar amantes, nunca tive". Dias depois, emenda: "Imagina eu tendo um filho com o autista com quem me casei. O Ricardo é patético, qualquer criança teria vergonha de ter um pai desse. Casei com um homem que não viveu. O Ricardo ficou trancado dentro de um quarto lendo a vida toda". Há muito mais, e ele resolve tirar uma cópia do diário e sair de casa.

Ricardo Lísias é o protagonista de Divórcio (Alfaguara), novo romance do paulistano Ricardo Lísias, autor de O Céu dos Suicidas e de O Livro dos Mandarins e que viveu, na pele, situação semelhante à descrita no novo livro. À época, o polêmico caso foi acompanhado como uma elaborada ficção, que envolvia contos e fofocas, pelo meio literário, onde ele circulava, e o jornalístico, onde ela atuava. O livro chega agora às livrarias, dois anos depois do falatório. Não haverá um evento de lançamento, e por decisão do autor e da editora, ele só aceitou falar com a imprensa por e-mail.

"Meu livro tem um ponto de partida pessoal e traumático e a partir dele criei um texto de ficção. É algo absolutamente comum na arte. Nesse sentido, meu procedimento inicial não tem nada de original. A linguagem, meio de expressão artístico da literatura, não reproduz a realidade, em nenhuma maneira. No caso do meu romance, a linguagem está sendo usada esteticamente. Por isso, não faz sentido algum o leitor tentar encontrar no meu livro 'o que aconteceu'. A literatura não reproduz a realidade, mas sim cria outra", justifica.

Divórcio é dividido em 15 capítulos, chamados pelo autor de Quilômetro Um, Quilômetro Dois e assim por diante. É a distância que se percorre para completar a corrida de São Silvestre, que virou uma das metas do protagonista e parte importante de sua recuperação.

Assim que conseguiu sair do choque do encontro com o lado desconhecido de sua ex-mulher, Ricardo percebe que precisa reaprender a respirar e recuperar sua pele, desgrudada de seu corpo, em carne viva desde o surto. Enquanto remói o que leu - os insultos, uma traição pouco mais de um mês depois do casamento -, se refaz do trauma e elabora seu luto, Ricardo caminha, corre, anota frases autobiográficas que o remetem à infância e juventude, aceita a solidão involuntária da pessoa que chora na rua de uma grande cidade sem ser notada. E escreve um livro. Afinal, Ricardo é escritor e trabalha num romance chamado Divórcio.

No livro lançado agora está todo esse processo de recuperação do personagem, contado por ele mesmo, e de feitura da obra, além de suas reflexões sobre as fraquezas e pontos fortes do livro e as tentativas de dissuadi-lo de contar essa história. O personagem-autor escreve: "Divórcio é um romance que vai assumidamente fracassar. Eu queria contar tudo. Mas é impossível chegar lá". Três capítulos depois, retoma: "Se meu objetivo inicial era deixar para trás todo o mal-estar que senti ao ler o diário, Divórcio é um romance bem-sucedido".

Lísias usa poucos nomes no livro, mas descreve algumas das pessoas envolvidas em sua história. A reportagem pergunta se tem receio de alguma retaliação por parte de quem possa se identificar com a obra. "Não consigo compreender como isso seja possível. Se alguém se identificar com alguma personagem do meu livro, estará se colocando na pele de uma personagem de ficção. Não posso controlar a atitude de um leitor diante de um texto. Acredito na liberdade dos textos, dos escritores e dos leitores", responde.

O autor diz que vale mais para o leitor se ele compreender que a arte não reproduz a realidade. "Eu nunca me achei personagem de um quadro, mas sempre tentei tirar deles o melhor que eu podia. Assim, a arte sempre foi um lugar absolutamente fundamental na minha vida, um pouco na criação, mas sobretudo na tentativa de desvendamento estético. É isso que torço para que os leitores de todos os meus livros façam", completa.

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