Fernanda Fiamoncini/Divulgação
Fernanda Fiamoncini/Divulgação

Na ficção, as estribeiras perdidas do amor

Em ‘Divórcio’, o escritor Ricardo Lísias narra o trauma da separação de Ricardo

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S.Paulo

02 de agosto de 2013 | 20h17

Ricardo Lísias acorda um dia e se lembra de que tem uma conta a pagar. Ao abrir a gaveta da mulher, encontra o boleto no meio de um caderno. Bate os olhos numa frase e as pernas bambeiam. Reluta, respira, e lê tudo num só fôlego. Fazia apenas quatro meses que os dois tinham se casado. E no diário, na primeira viagem depois da festa, ela escreve: “Eu estou viajando em lua de mel, mas não estou apaixonada. O Ricardo é legal, inteligente e às vezes me diverte, apesar de andar muito. Mas apaixonada eu não estou. Eu não sei o que vai ser quando voltarmos ao Brasil. Eu gosto de ser casada com um escritor. É só esconder certas coisas e pronto. Eu sou uma mulher atraente, não tenho dificuldades para achar amantes, nunca tive”. Dias depois, emenda: “Imagina eu tendo um filho com o autista com quem me casei. O Ricardo é patético, qualquer criança teria vergonha de ter um pai desse. Casei com um homem que não viveu. O Ricardo ficou trancado dentro de um quarto lendo a vida toda”. Há muito mais, e ele resolve tirar uma cópia do diário e sair de casa.

Ricardo Lísias é o protagonista de Divórcio (Alfaguara), novo romance do paulistano Ricardo Lísias, autor de O Céu dos Suicidas e de O Livro dos Mandarins e que viveu, na pele, situação semelhante à descrita no novo livro. À época, o polêmico caso foi acompanhado como uma elaborada ficção, que envolvia contos e fofocas, pelo meio literário, onde ele circulava, e o jornalístico, onde ela atuava. O livro chega agora às livrarias, dois anos depois do falatório. Não haverá um evento de lançamento, e por decisão do autor e da editora, ele só aceitou falar com a imprensa por e-mail.

“Meu livro tem um ponto de partida pessoal e traumático e a partir dele criei um texto de ficção. É algo absolutamente comum na arte. Nesse sentido, meu procedimento inicial não tem nada de original. A linguagem, meio de expressão artístico da literatura, não reproduz a realidade, em nenhuma maneira. No caso do meu romance, a linguagem está sendo usada esteticamente. Por isso, não faz sentido algum o leitor tentar encontrar no meu livro ‘o que aconteceu’. A literatura não reproduz a realidade, mas sim cria outra”, justifica.

Divórcio é dividido em 15 capítulos, chamados pelo autor de Quilômetro Um, Quilômetro Dois e assim por diante. É a distância que se percorre para completar a corrida de São Silvestre, que virou uma das metas do protagonista e parte importante de sua recuperação.

Assim que conseguiu sair do choque do encontro com o lado desconhecido de sua ex-mulher, Ricardo percebe que precisa reaprender a respirar e recuperar sua pele, desgrudada de seu corpo, em carne viva desde o surto. Enquanto remói o que leu – os insultos, uma traição pouco mais de um mês depois do casamento –, se refaz do trauma e elabora seu luto, Ricardo caminha, corre, anota frases autobiográficas que o remetem à infância e juventude, aceita a solidão involuntária da pessoa que chora na rua de uma grande cidade sem ser notada. E escreve um livro. Afinal, Ricardo é escritor e trabalha num romance chamado Divórcio.

No livro lançado agora está todo esse processo de recuperação do personagem, contado por ele mesmo, e de feitura da obra, além de suas reflexões sobre as fraquezas e pontos fortes do livro e as tentativas de dissuadi-lo de contar essa história. O personagem-autor escreve: “Divórcio é um romance que vai assumidamente fracassar. Eu queria contar tudo. Mas é impossível chegar lá”. Três capítulos depois, retoma: “Se meu objetivo inicial era deixar para trás todo o mal-estar que senti ao ler o diário, Divórcio é um romance bem-sucedido”.

Lísias usa poucos nomes no livro, mas descreve algumas das pessoas envolvidas em sua história. A reportagem pergunta se tem receio de alguma retaliação por parte de quem possa se identificar com a obra. “Não consigo compreender como isso seja possível. Se alguém se identificar com alguma personagem do meu livro, estará se colocando na pele de uma personagem de ficção. Não posso controlar a atitude de um leitor diante de um texto. Acredito na liberdade dos textos, dos escritores e dos leitores”, responde.

O autor diz que vale mais para o leitor se ele compreender que a arte não reproduz a realidade. “Eu nunca me achei personagem de um quadro, mas sempre tentei tirar deles o melhor que eu podia. Assim, a arte sempre foi um lugar absolutamente fundamental na minha vida, um pouco na criação, mas sobretudo na tentativa de desvendamento estético. É isso que torço para que os leitores de todos os meus livros façam”, completa.

TRECHOS

“Nas minhas anotações, a segunda semana depois de sair de casa foi tomada por ruídos caóticos e pelo enorme medo de ter enlouquecido: tive mesmo certeza de estar vivendo um dos meus textos. Cheguei a me concentrar para mudar o enredo, refazendo folhas de rascunho, remanejando esquemas e sobretudo mudando personagens. No final do capítulos, porém, voltavam sempre o Festival de Cannes 2011, Lars von Trier dizendo que compreende Hitler, as guerras de libertação da África e o diário.”

“Na casa da vagabunda estavam quase todas as minhas roupas, os livros que não vieram para o cafofo no casamento, minha pequenina coleção de tabuleiros e peças de xadrez, vários clássicos do cinema. Alguns documentos pessoais. Se você mexer em alguma coisa, adverti por SMS no mesmo dia em que fui embora, coloco seu diário na internet. Minha ex-mulher estava no almoço de despedida do jornal quando avisei que tinha achado e lido o diário. Morro de inveja dos colegas dela. Deve ter sido um espetáculo.”

“Ontem, perguntaram-se por que estou escrevendo este livro. Talvez para deixar claro que estava tudo na minha frente. E eu não via. Ou para inventar que estava tudo na minha frente e eu não via. Na verdade, provavelmente para mostrar para mim mesmo que consigo escrever um livro depois de ter morrido uma vez.”

“A única pessoa real exposta neste livro sou eu. Não havia como ser diferente. Estava sem pele e qualquer máscara doía demais. “

Divórcio pode ser visto como uma manifestação de ressentimento. O cara ficou um ano remoendo um casamento que em quatro meses não deu certo. É o raciocínio típico de quem não conhece os mecanismos da literatura. Estou esse tempo todo achando termos que me pareçam adequados para construir uma determinada narrativa. Escolhi essa porque não tinha possibilidade, 12 meses atrás, de pensar em outra.”

DIVÓRCIO

Autor: Ricardo Lísias

Editora: Alfaguara

(240 págs., R$ 39,90)

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