Na estrada, caminhando com Peter Weir

Novo longa do diretor transforma jornada física em abstração metafísica para falar do limite humano

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

03 de janeiro de 2012 | 03h07

Na Austrália, onde nasceu, e em Hollywood, para onde se transferiu, Peter Weir assinou um punhado de filmes que estabeleceram sua reputação de grande cineasta. E ele nunca se intimidou diante dos temas complexos - Sem Medo de Viver e O Show de Truman tratam simplesmente do maior de todos os assuntos, o mais perturbador de todos. A existência de Deus, o significado da existência. Nos últimos anos, a atividade de Weir tornou-se bissexta. A distribuidora Califórnia não ajudou. Primeiro, ficou jogando com o lançamento de Caminho da Liberdade nos cinemas. A chance é resgatar o filme em DVD - e vale a pena.

O título brasileiro enfatiza a questão ideológica. No original é The Way Back, O Caminho de Volta. Weir inspirou-se num livro, que abandonou. Não se trata de uma adaptação. Como havia controvérsia sobre se o autor - Slawomir Rawicz - realmente participara da odisseia que relata, o diretor seguiu um caminho próprio. Jim Sturgess, Ed Harris e Colin Farrell são prisioneiros do Gulag, na Rússia comunista. Com outras quatro pessoas, incluindo Saoirse Ronan, a garota de Atonement, eles fogem e iniciam uma jornada de milhares de quilômetros através da Mongólia gelada e do deserto de Gobi (o inferno na Terra), até chegar à Índia. Caminham, sem parar. No desfecho, Weir metaforiza o gesto desses andarilhos. O personagem de Jim Sturgess caminha pelo que não deixa de ser a grande História (com H). Atravessa a derrocada do comunismo para um (re)encontro.

Muitos filmes já se construíram em torno ao tema da fuga do totalitarismo. Basta citar dois - A Morada da Sexta Felicidade, de Mark Robson, nos anos 1950, em que a missionária Ingrid Bergman atravessa a China para salvar criancinhas do comunismo; e Fugindo do Inferno, de John Sturges, nos 60, sobre a fuga de prisioneiros de um campo nazista. Os prisioneiros de Caminho da Liberdade fogem de um inferno - o Gulag. Formam um grupo heterogêneo, com todo tipo de divergência interna, até mesmo ideológicas, mas representam o limite da resistência e da tenacidade humanas. Sempre em frente, independentemente de tudo.

Numa entrevista que deu ao Estado, Saoirse falou sobre o desafio de fazer um filme baseado na noção do deslocamento e no qual as locações mudavam a toda hora. Também destacou que a preocupação de Weir, em relação à sua personagem, era fazer com que ela, única num grupo de homens, não colocasse um subtexto sexual. Outro diretor talvez tivesse explorado essa possibilidade - um caso de assédio, talvez. Existe uma atração, mas não é o tema. Filmes mais antigos de Peter Weir já tentaram decifrar o enigma. As garotas de Picnic na Montanha Misteriosa somem sem deixar rastro. Algumas pessoas desistem - o personagem de Colin Farrell em Caminho da Liberdade - enquanto outras resistem.

Weir não busca explicações de causa e efeito. Os brancos do relato ficam para ser preenchidos pelo espectador. A amplidão da paisagem - seja um campo de neve ou a árida extensão de areia do deserto - remete ao interior das pessoas. O desafio de Caminho da Liberdade é transformar a jornada física numa espécie de abstração (metafísica?). O homem/um grupo de homens e seus limites. Caminho da Liberdade é a extensão do abismo líquido de Mosquito Coast ou de Mestre dos Mares, o longa anterior (de 2003) do diretor. O homem e a natureza. Mais um tema amplo para as especulações de Peter Weir.

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