Na estrada, a caminho do fim

Anjos da Desolação, de Jack Kerouac, narra um ano e meio de sua vida e marca o começo de uma[br]etapa repleta de fracassos e dificuldades, com o agravamento das consequências do alcoolismo

Claudio Willer, O Estado de S.Paulo

18 de setembro de 2010 | 00h00

Se Jack Kerouac percorreu freneticamente seu país em On the Road, em Anjos da Desolação - que cobre um ano e meio da sua vida, de meados de 1956 até o final de 1957 e a publicação daquela que se tornaria sua obra mais conhecida - relata viagens mais extensas, inclusive ao Marrocos (onde ajudaria William Burroughs a terminar Naked Lunch), França e Inglaterra. E, finalmente, a travessia de ônibus até São Francisco, cidade em que planejava morar com a mãe. Paradoxalmente, a narrativa em que mais viaja é aquela em que anuncia o fim das viagens para isolar-se de vez; a que traz os mais ricos registros de sua convivência com outros integrantes da geração beat é aquela na qual se desliga desse movimento; a que coincide com a publicação de On the Road após anos de espera, e a consequente consagração, é aquela na qual rejeita o título de "rei dos beats". Despede-se: "Um pacífico pesar em casa é o melhor que sempre serei capaz de oferecer ao mundo, ao final, e assim eu disse adeus a meus Anjos da Desolação. Uma nova vida para mim." Mas a "nova vida" seria um fracasso, pelo agravamento das consequências do alcoolismo precedendo sua morte em 1969, aos 47 anos.

O relato começa pela estada em uma cabana no topo do Desolation Peak, como vigia de incêndios em um parque nacional no extremo Noroeste dos Estados Unidos. Identifica-se com o patriarca budista Hui Neng; através da contemplação, quer "ficar cara a cara com Deus ou com Tathagata e descobrir de uma vez por todas qual é o significado de toda essa existência, todo esse sofrimento e todo esse vaivém inútil". Busca a iluminação; e a cura do alcoolismo pela abstinência forçada. Contudo retorna ao mundo para cair na vida, ao encontrar os companheiros beat no momento em que emergem para a fama. Logo parte para o México, seu território paradisíaco desde o episódio narrado no final de On the Road. Lá escreve os Mexico City Blues e outras obras. O grupo se reconstitui com a chegada de Allen Ginsberg, Gregory Corso e os irmãos Orlovsky: retornam a Nova York em mais uma travessia de carona.

Anjos da Desolação se sobrepõe a outras obras de Kerouac: o breve e pungente Tristessa (relato de seu envolvimento com uma viciada e prostituta mexicana, a quem descreve como santa, encarnação da pureza) e Viajante Solitário (que também narra a viagem à África e Europa). Foi escrito por etapas. A primeira parte, no Desolation Peak, é transcrição de diário, registro direto em prosa poética, com um trecho especialmente vigoroso sobre o "horror insondável em toda parte" para concluir que "a forma é o nada, e o nada é a forma". Explora limites da linguagem para traduzir alucinações, evocações, devaneios e sonhos através de uma escrita polifônica: na mesma frase, vai entrelaçando tempos e temas. O relato da estada em São Francisco foi escrito logo a seguir, no México; mas o restante seria preparado mais tarde, em 1961, após a crise com delirium tremens narrada em Big Sur.

A cronologia pode explicar o amargor crescente ao longo do livro. Kerouac foi deslizando do budismo e misticismo neoplatônico para um dualismo mais duro, semelhante ao maniqueísmo. Paisagens e lugares que em On the Road o encantavam agora o oprimem. Repete referências à desolação, tristeza, dor, às "terríveis distâncias", à "solidão inacreditável", ao horror. Não vê saída; a sociedade americana é totalitária, um estado policial, entretanto descrê de qualquer utopia; rejeita categoricamente não só o comunismo soviético, mas também a politização da beat; mais tarde, se oporia às rebeliões juvenis e mobilizações pacifistas da década de 1960.

On the Road é sua obra de maior influência, e Visões de Cody a mais complexa e ousada, no entanto nenhuma se detém a esse ponto em sua visão de mundo. Da ascese no Desolation Peak até a epifania em companhia da mãe em uma igreja em Ciudad Juarez ao verem penitentes mexicanos, é busca religiosa, ora traduzida em termos budistas, ora católicos. Reitera que a realidade é falsa, ilusória; a verdade pode ser alcançada pela rememoração, a anamnese platônica: "Só o que eu me lembro é que antes de eu nascer existia alegria." O arcaico, para Kerouac, sempre é superior ao presente; a pobreza de outrora vale mais que a euforia de hoje: "Porque eu ainda me lembro da América quando homens viajavam levando toda a bagagem num saco de papel, sempre amarrado com barbante", contrastando com "a América próspera de 1957". Consequentemente, o mundanismo e o sucesso literário o exasperam. O valor conferido à pobreza e aos pobres - índios mexicanos, miseráveis urbanos, felás marroquinos - é por viverem de um modo mais primitivo; por isso, mais próximo da origem. A ternura para com loucos, excêntricos e marginais é solidariedade de alguém que se sentia permanentemente estrangeiro, exilado em todo lugar. Ao final, com a notícia da morte de Bill Garver - o ladrão e viciado amigo de William Burroughs, seu vizinho e interlocutor na Cidade do México -, o elogio fúnebre por sua sabedoria, por ter sido um erudito que dava aulas na prisão.

A extensão do livro não é apenas pelos trajetos e sucessão de acontecimentos. Deve-se ao empenho de Kerouac em realizar um registro total. Comenta seu procedimento de criação, o registro do fluxo do pensamento: "Muitas vezes leio uma linha das conversas que estão na minha mente para ver o que ela diz." Em favor da espontaneidade, abomina os intelectuais cerebrais. Menciona Joyce, Céline, Beckett, Hemingway, Camus, Kafka, Proust, Dostoiévski, Rimbaud; modelos, não de textos, porém de situações que vive; essas, por sua vez, se constituirão em autobiografia. Assim inverte a relação tradicional, aristotélica, entre literatura e realidade.

A tradução de Guilherme da Silva Braga enfrenta as dificuldades da prosa de Kerouac ao converter língua falada em texto, assim realizando a "prosódia bop". Contudo, se decidiu manter alguns vocábulos em inglês, poderia ter notas, para que o leitor saiba, por exemplo, que okie é o caipira de Oklahoma. Relato à clef, Anjos da Desolação é um registro histórico da beat; caberia um guia mais completo dos pseudônimos criados por Kerouac para personagens reais, a exemplo daquele que está na edição brasileira de O Livro dos Sonhos.

A obra vem com dois prefácios que expõem sua filosofia da composição. Um deles é o depoimento de Joyce Johnson, então companheira de Kerouac e autora de Minor Characters. O outro, de Seymour Krim, da primeira edição do livro, 1965, é datado; mas, infelizmente, continua atual na defesa do valor de uma obra ainda "desprezada ou ridicularizada" por alguns críticos.

CLAUDIO WILLER É POETA, ENSAÍSTA E TRADUTOR, AUTOR DE UM OBSCURO ENCANTO - GNOSE, GNOSTICISMO E POESIA MODERNA (CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA), ENTRE OUTROS LIVROS

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