Na estante da semana, o amor de dom Paulo pelo Corinthians

Cardeal fala do seu time de coração em crônicas. E mais: histórias dos índios do Xingu, violência e misticismo no Brasil rural, mulheres em prosa e verso...UMA DECLARAÇÃO DE AMOR AO CORINTHIANS. DE DOM PAULO EVARISTO ARNS.Há quem diga que política, futebol e religião não se discutem. O cardeal dom Paulo Evaristo Arns, arcebispo emérito de São Paulo, contraria essa regra. Em 1964, foi ferrenho opositor do regime militar. Nove anos mais tarde, posou com a bandeira do Corinthians na capa da revista Placar. Agora, em Corintiano Graças a Deus, que acaba de ser lançado pela Editora Planeta, mostra que a sobriedade esperada de um religioso pode ser perfeitamente conciliada com os furores causados por um dos esportes mais passionais do mundo. Partindo de sua paixão, dom Paulo faz delicadas e surpreendentes crônicas sobre seu amor ao clube. O livro (140 páginas, R$ 29,90) revela que, assim como intercedeu diretamente com generais para livrar os presos da tortura no período militar, o cardeal também pediu ao papa Paulo VI que São Jorge ? padroeiro do Corinthians ? não tivesse seu título cassado em um reordenamento do calendário oficial da liturgia. "Santo Padre, nosso povo não está entendendo direito a questão. São Jorge é muito popular no Brasil, sobretudo entre a imensa torcida do Corinthians, o clube de futebol mais popular de São Paulo". Paulo VI entendeu o problema: "Não podemos prejudicar nem a Inglaterra nem o Corinthians". Dom Paulo guarda até hoje o bilhete do pontífice.Outro episódio registrado no livro lembra os 22 anos amargos em que o Corinthians ficou sem títulos. Ao saber que a má fase estava sendo atribuída a um sapo enterrado no Parque São Jorge, dom Paulo ameaçou virar palmeirense. Sem demora, a diretoria do clube convidou-o não apenas para um, mas para dois jantares. Conta ele: "No final, pediram-me que desse uma bênção ?bem forte? naquele local, o que, evidentemente, fiz com muito gosto. O resultado todos conhecem: vencemos com Deus, não com o sapo!". A obra tem apresentação de Juca Kfouri e posfácio de Maria Angela Borsoi, sua secretária desde 1967.UM RELATO DE VIAGEM. COM MUITAS HISTÓRIAS DOS ÍNDIOS DO XINGU.As estrelas, os índios, as índias, o tucunaré, o biju, os cantos, as danças, as pinturas. Está tudo reunido no livro Xingu ? Viagem sem volta, de Julio Capobianco, um relato dos dias que passou na aldeia dos índios kuikuro, no noroeste de Mato Grosso. A viagem foi em 2000, quando assistiu a um Kuarup, e o livro, na forma de um diário bem-humorado ? e em papel reciclado! ? traz à tona uma infinidade de reflexões sobre o contato com essa cultura. Ao escrevê-lo, um dos objetivos do autor foi interessar outras pessoas, inclusive empresários, para a questão indígena. Texto ilustrado pelas pinturas do próprio Julio e fotos de sua neta, Ana Terra.Julio Capobianco é empresário da área da construção civil, Construcap, e o respeito ao meio ambiente sempre fez parte de suas preocupações centrais. Eis um mini-perfil do autor, no texto do jornalista e editor Vicente Wissenbach, na apresentação de Xingu ? Viagem sem volta (Terceiro Nome, 156 páginas, R$ 32,00): "Julio Capobianco tem uma imensa capacidade de nos surpreender, revelando-nos a cada momento novas facetas de sua personalidade, de seu amor pela cultura e pelo homem. Como empresário, construiu uma empresa sólida e séria, preocupada não apenas com o desenvolvimento tecnológico, mas também com o meio ambiente e com a área social. Como fazendeiro, demonstrou um profundo respeito pelo patrimônio histórico, restaurando com rigor a sede da Fazenda Catitó e a antiga estação ferroviária. Amante dos livros, agora nos mostra outra face. Revelou-se um grande escritor".NOVAS MEMÓRIAS DO CÁRCERE. UNS TEMPOS DE AMARGURA E TRISTEZA NA BAHIA.A repressão na Bahia, nos anos amargos da ditadura militar, narrada por homens e mulheres que sacrificaram a liberdade, ou mesmo a vida, no combate ao autoritarismo e à injustiça. Da experiência pessoal ? quatro anos de prisão na Penitenciaria Lemos de Brito ?, Emiliano José partiu para um trabalho jornalístico que lhe permitiu reconstruir esse período com a densidade que só as historias reais têm. Daí nasceu o livro Galeria F (Casa Amarela, 125 páginas, R$ 15,00). Os depoimentos, carregados de dramaticidade, foram publicados inicialmente em capítulos no jornal A Tarde, de Salvador, entre agosto de 1999 e julho de 2000. A cada capítulo publicado, o jornalista corria atrás de fontes para escrever o próximo. Com isso, como explica, "a série assumiu um ar folhetinesco, novelesco, varias vezes me paravam na rua para perguntar o que ia acontecer no capítulo seguinte".O livro é o resultado dessa série e da paixão que despertou nos leitores. Emiliano José traz seu testemunho e o de tantos outros de sua geração, suprindo a lacuna da historia oficial a partir de 1964 e aproximando a sociedade de sua historia real.HISTÓRIAS DE MULHERES. E TAMBÉM DE UM GRANDE LAGO SALGADO.A naturalista norte-americana Terry Tempest Williams apresenta seu livro Refúgio como uma história incomum sobre mulheres e meio ambiente. As mulheres, todas de sua família, ganham um longo capítulo, O clã das mulheres de um só seio. Os outros são dedicados ao massacre dos pássaros que buscam guarida no Great Salt Lake, o Grande Lago Salgado do Estado de Utah. Em Refúgio (Ágora, 222 páginas R$ 22,00), a autora, pesquisadora do Museu de História Natural de Utah, em Salt Lake City, entrelaça dois episódios aparentemente distintos que ocorreram na década de 80 nas proximidades de Great Salt Lake: a destruição de um refúgio de pássaros migratórios, ao qual é muito ligada, e os últimos meses de vida de sua mãe, vítima de um câncer de mama.A causa do primeiro episódio é um inesperado aumento do volume das águas do lago, causando enchentes; a do segundo, o câncer, provavelmente em conseqüência da exposição a resíduos radioativos durante experiências com bombas atômicas na região, na década de 50. Uma narrativa comovente e também um alerta ao modo descuidado com que lidamos com a natureza.O escritor Jim Harrison, autor de Lendas da Paixão, vê em Refúgio "um ensaio sobre a mortalidade, a nossa própria e a do mundo, às vezes insuportavelmente intenso e habilidoso".OS GRANDES TIROTEIOS (E MOMENTOS DE REZA) NO SERTÃO, NO TEXTO DE GREGG NARBER.A guerra de Canudos é certamente o movimento popular mais conhecido e estudado da História do Brasil. Está nas páginas do clássico Os Sertões, de Euclides da Cunha. O conflito e seu líder, o beato Antônio Conselheiro, ganharam destaque não apenas em outros livros mas também no cinema e na televisão. Mas outros movimentos, que também reuniram um número expressivo de seguidores, mereceram poucos registros. Alguns acabaram passando quase despercebidos. São os casos, por exemplo, do Pau de Colher, Caldeirão, Muckers, Contestado, o Panelas e o Borboleta Azul. Todos eles, característicos do Brasil rural, têm suas origens no misticismo e, em muitos casos, foram apoiados na violência. Esses conflitos, junto com o cangaço, são os temas do livro Entre a cruz e a espada: violência e misticismo no Brasil rural (208 páginas, R$ 35,00), do cientista político norte-americano Gregg Narber, lançado pela Editora Terceiro Nome.A pesquisa da qual nasceu o livro foi premiada em 2001 pela Federação das Academias de Letras e Artes da Bahia, pela Associação Cultural Brasil-Japão e pela Associação Cultural Amigos do Sertão. Entre a cruz e a espada: violência e misticismo no Brasil rural reúne fotos e ilustrações raras e pouco divulgadas e tem prefácio de Frederico Pernambuco de Mello, especialista em aspectos históricos do Nordeste. O projeto gráfico é de Diana Mindlin.A POESIA DO GAÚCHO CARPINEJAR, ANDANDO POR UM UNIVERSO MUITO PASSIONAL.O sexto livro de Fabrício Carpinejar. Nele, Cinco Marias (108 páginas, R$ 19,00), agora lançado pela Bertrand Brasil, o poeta gaúcho, de apenas 31 anos, retrata o universo passional e sensível de uma mãe e suas quatro filhas. O livro é composto somente de personagens femininos. As mulheres dominam a cena. "Revela-se uma obra de mulheres para mulheres, que os homens vão desejar espiar", brinca Carpinejar. É um longo poema de versos curtos. Um poema com enredo, trama e suspense, Cinco Marias pode ser lido tanto como poesia como romance, como seqüência ou individualmente. Tudo começa com a estranha ordem materna de enterrar a biblioteca. O marido e pai não aparece, fica como uma sombra rondando os aposentos.Um diário de cinco vozes, sem pontuação teatral, o leitor terá que descobrir, pelo temperamento, quem está falando nos poemas. Como a brincadeira, as pedras vão se acumulando nas mãos até que todas sejam esclarecidas em um único arremesso e surpreendente final. Cada poema é a fala de uma das protagonistas.

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