Na era do suingue

Esqueça os políticos. Esqueça os movimentos de protesto. Esqueça os comediantes satíricos. O que os Estados Unidos realmente precisam é de um pouco de boa música.

NOVA JERSEY, O Estado de S.Paulo

27 de maio de 2012 | 03h11

Mal consigo escutar o rock de hoje, e a memória mais viva que tenho desse tipo de música é de algo que ocorreu quando fui a uma apresentação do Led Zeppelin no Madison Square Garden, na adolescência. Subitamente, o sujeito sentado ao meu lado agarrou o corrimão de ferro na frente dos nossos lugares, gritou "Yeah!", vomitou e caiu sobre o corrimão, desabando numa poça do próprio vômito. Fiquei estático. Talvez haja uma metáfora escondida nessa situação, mas não consigo encontrá-la, não importa quanto pense no episódio (o que ocorre quando o sexo e as drogas encontram o sistema digestivo adolescente?) Mas é certo que os EUA não teriam saído do Vietnã sem o desaparecimento da melodia em meio ao marcante ritmo do rock e seu barulho ensurdecedor. A ameaça implícita parecia ser: tragam os soldados para casa e prometemos abaixar o volume.

A Revolução Francesa teve como catalisador musical As Bodas de Fígaro; os exércitos imperialistas e democratizantes de Napoleão marcharam pela Europa acompanhando a cadência da sinfonia Eroica, de Beethoven; Prokofiev compôs a trilha sonora dos filmes de Sergei Eisenstein, que acompanharam a Revolução Russa. Nos Estados Unidos, o jazz da era do suingue impulsionou o New Deal; o jazz mais cool e a Motown marcaram o início da era dos Direitos Civis; a disco abasteceu as energias da liberação gay. Será mesmo surpreendente que a primeiríssima medida adotada após um golpe de Estado - ao menos na era anterior à internet - fosse assumir o controle das estações de rádio?

Nos dias de hoje, numa América dilacerada pelo desamparo econômico e pelas amargas divisões políticas, a música é domesticada, completamente comercializada, fragmentada em bilhões de nichos microscópicos espalhados pela internet. Os forasteiros expulsos das cidadezinhas e zonas rurais menos tolerantes dos Estados Unidos antes encontravam almas gêmeas ao procurarem santuários urbanos para um estilo particular de música subversiva. Agora eles se sentam num Starbucks ouvindo Adele fingir infelicidade em seus iPods.

A música criou uma revolução na minha vida. A bossa nova destruiu o casamento dos meus pais. Bem, a bossa nova e também meus próprios esforços musicais, de modo que a separação e subsequente divórcio dos meus pais não ocorreram totalmente por culpa do Brasil. Em algum momento de meados dos anos 60, minha mãe começou a acreditar que era a garota de Ipanema. Ela começou a andar pela nossa casa suburbana como se ouvisse um samba de suingue gostoso e balanço gentil e, a cada dia, quando descia ao porão para apanhar as roupas limpas, ela olhava diretamente para frente, e não para o meu pai. Mesmo depois que a breve moda de dançar bossa nova perdeu força nos Estados Unidos (ninguém sabia de fato como dançar ao som daquele ritmo), ela manteve o olhar sonhador, graças a todo aquele balanço.

Enquanto isso, comecei a manifestar meu rápido desenvolvimento hormonal ao me trancar no quarto para tocar o contrabaixo elétrico, compensando minha falta de aptidão para o instrumento com o volume cada vez mais alto. Minha mãe balançava, eu trovoava, e meu pai quase teve um colapso nervoso, o que é irônico se pensarmos que ele era um pianista de jazz que já tinha tocado com Stan Getz, e tinha apresentado minha mãe à bossa nova que trouxera nova vida ao jazz e à música popular dos EUA.

Aquele balanço da bossa nova afetou a ambos os meus pais. Ele significava que a vida não tinha de ser vivida em mergulhos para frente e espasmos de melancolia nostálgica, que era possível vivê-la com mais suingue, mais sensualidade, mais sentido, de um lado para o outro. A chegada da bossa nova à América foi uma espécie de revolução no prazer. O surgimento do rock foi outra. Mas o hedonismo do rock era insistente, programático. Era muito agressivo porque consistia numa reação defensiva ao puritanismo, cujas raízes são profundas nos EUA. Na sua maneira de expulsar a melodia, o rock foi em si puritano. Não se tratava de um portal para o prazer, como a bossa nova, e sim de uma ideologia do prazer.

Mas podemos também enxergar o jazz, a bossa nova e o rock como partes de uma continuidade. Cada estilo descortinou novos horizontes na consciência de diferentes grupos de pessoas. Talvez a mudança política nos tempos modernos - e não quero dizer com isso que a mudança, ao estilo da Revolução Russa, seja necessariamente para melhor - tenha sido frequentemente acompanhada pela música porque a música convida ao prazer, e o prazer é um argumento mais convincente do que a política. São incontáveis os casos de reacionários que se tornaram revolucionários, e vice-versa, porque havia do outro lado alguém de estatura alta, pele bronzeada e aparência atraente a dançar. Num nível mais profundo, talvez tudo que as políticas reformistas precisem para ter sucesso seja uma melodia que possamos assoviar e um ritmo que nos faça mexer o corpo. E um estômago forte, é claro, independentemente do lado em que estejamos.

Leia a versão original do texto de Lee Siegel, em inglês.

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