Na era do batuque de palanque

O samba não manda mais na política. Sua importância foi suplantada pelos pastores-cantores

Nei Lopes & Samba, O Estado de S.Paulo

23 de outubro de 2010 | 00h00

Por incrível que pareça, o samba e os sambistas já tiveram importância na política brasileira. Principalmente porque, durante a Era Vargas, o samba foi peça fundamental no projeto de governo.

Nessa conjuntura, quando, na cidade do Rio de Janeiro, o Poder Federal e o Municipal se confundiam, uma figura de proa foi Pedro Ernesto, interventor federal que, depois, se tornou o primeiro prefeito eleito pelo voto popular carioca.

Segundo Isabel Lustosa, em artigo no Jornal do Brasil em 1992, "num tempo em que os políticos muitas vezes nem conheciam as localidades pelas quais se elegiam", Pedro Ernesto foi buscar seus votos, com realizações significativas, nos redutos mais distantes, entre eles os das escolas de samba. Assim, em 1935, no seu primeiro desfile oficial, as escolas disputavam o Troféu Pedro Ernesto.

No ano anterior tinha sido fundada a União (depois União Geral) das Escolas de Samba, com a finalidade de ajudar a organizar os desfiles. A ligação dessa entidade com o Partido Comunista era tão forte, tão forte que sua sigla, Uges, acabou sendo traduzida pelos adversários como sendo "União Geral das Escolas Soviéticas."

Em 1946, fora do carnaval, a Uges produzia um desfile em homenagem a Luiz Carlos Prestes, com a participação de 22 escolas e sambas alusivos à saga do Cavaleiro da Esperança. Entretanto, para frear o ímpeto, logo era fundada, sob a influência do político Frederico Trotta, e tendo como secretário-geral o jornalista Oyama Brandão, ferrenho anticomunista, segundo Sérgio Cabral (As Escolas de Samba, 1996), a Federação Brasileira das Escolas de Samba.

O coronel Trotta foi o segundo governador do território federal do Iguaçu, no atual Paraná, nomeado pelo presidente Dutra. Mas seu maior interesse era o poder que emanava do Distrito Federal. Assim, às vésperas das eleições de 1950, um panfleto conclamava: "Companheiros das escolas de samba! Gente do morro e da planície! (...) Unamo-nos, pois, em torno do nome do nosso grande amigo de sempre e de longos anos Cel. Frederico Trotta, façamos força para elegê-lo novamente, a fim de termos um defensor de nossos interesses na altura da nossa querida metrópole. Às urnas! Em 3 de outubro de 1950, com a cédula que representa a nossa gratidão, para vereador FREDERICO TROTTA".

No documento, transcrito no livro Império Serrano, Primeiro Decênio, de Francisco de Vasconcellos (Rio de Janeiro, edição do autor, 1991), após a data de 2 de agosto, seguem-se dez assinaturas de pessoas referidas no texto como "velhos sambistas", mas nenhuma delas assim reconhecida.

Esse ano de 1950 foi essencialmente político. Assim, no início de janeiro, era criada a União Cívica das Escolas de Samba, que recebeu logo a adesão de poderosas forças do meio e o suporte jornalístico do Diário Trabalhista. E a nova entidade, sem perda de tempo, aclamou como seus sócios honorários o marechal Dutra e o prefeito Mendes de Moraes.

Mas a Federação, apoiada pelo jornal A Manhã, reivindicou seu direito de controlar o concurso oficial das escolas. E a prefeitura, para contentá-la e à União Cívica, instituiu dois desfiles, em dois trechos diferentes da avenida. Enquanto isso, correndo por fora, a Uges realizou o seu na Praça Onze.

Essa divisão só teve fim, em parte, em 1953, com a unificação dos desfiles, que se seguiu à criação no ano anterior, da Confederação das Escolas de Samba, herdeira da União Cívica. A partir daí, consolidou-se a hegemonia histórica das "quatro grandes", Portela, Mangueira, Império e Salgueiro. E a política foi tomando outros caminhos, como o dos enredos da ascensão da Beija-Flor, tendo como tema as realizações da Ditadura de 64.

No momento atual, o samba (a não ser na trajetória isolada de sambistas como a combativa Leci Brandão, recém-eleita deputada em São Paulo) não manda mais nada na política, nem para o bem nem para o mal. Sua importância foi suplantada pela dos pastores-cantores evangélicos, que hoje decidem, e muito, na cena política brasileira.

NEI LOPES É ESCRITOR E PESQUISADOR, AUTOR DE LIVROS COMO O NEGRO NO RIO DE JANEIRO E SUA TRADIÇÃO MUSICAL

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