Na ditadura, ele arejou o debate acadêmico em livros como Informação. Linguagem. Comunicação A LARGA BATALHA PELO SENTIDO

TEIXEIRA COELHO

TEIXEIRA COELHO É CURADOR DO MUSEU DE ARTE DE SÃO PAULO (MASP), AUTOR DE O HOMEM QUE VIVE (ILUMINURAS), ENTRE OUTROS TRABALHOS, O Estado de S.Paulo

08 de dezembro de 2012 | 02h10

Décio (seu primeiro nome sempre bastou para designá-lo) teve sua presença reforçada no universo acadêmico ao final dos anos 60, quando os estudos de Comunicação, modismo do momento, foram aceitos na universidade. A ECA-USP é de 1967, em 68 Décio publicava Informação. Linguagem. Comunicação. Não apenas com ele, mas talvez sobretudo com ele, o formalismo nas ciências humanas se tornava alternativa de método num momento em que a universidade ainda se pautava pelos estudos do conteúdo, inclusive em arte e literatura. A ditadura forçava uma divisão do mundo nacional entre direita e esquerda; a esquerda ficava com o materialismo dialético e histórico e a direita, segundo a esquerda, com o formalismo, quer dizer, com o estruturalismo, a linguística e a semiótica, por ela colocados na mesma vala das ideologias reacionárias. Uma tolice. Mas, era assim.

Para os jovens, o formalismo via Décio era uma fonte fresca. E seus livros sobre o tema, como aquele mesmo Informação. Linguagem. Comunicação e o posterior Semiótica da Arte e da Arquitetura, não eram secos manuais de divulgação e introdução mas discursos vivos nos quais passava da teoria ao objeto da teoria - a arte, a literatura -, em mescla de reflexão filosófica e crítica de arte. Sua pedra de toque estava na proposição de Flaubert de que a forma engendra a ideia, não o contrário - anátema para os materialistas. Idea follows form, para seguir e inverter o form follows function de Louis Sullivan. Prefiro dizer que, em arte, form follows obsession, mas essa é outra história. Fato é que, à época, mesmo com o atraso em relação a Flaubert, a ideia de que a forma gera a ideia era uma ideia atrevida. Ideia de artista, não de teórico. Ótima ideia.

Em Semiótica da Arte e da Arquitetura, Décio revela outra de suas fontes, o manifesto de Mondrian sobre Arte plástica e Arte plástica pura, onde se lê que "o conteúdo (da obra de arte) não pode ser descrito, só pode transparecer por meio da plástica pura e da execução da obra". Isto levou Décio a deixar de lado o formalismo da linguística (embora preservasse o verbal) para privilegiar o formalismo da semiótica na linha de Peirce, com sua teoria sobre o signo, clara e ao mesmo tempo complexa. A descoberta da semiótica, não tanto como método específico de análise, mas como modo geral de pensar, espécie de grande lógica contemporânea apropriada aos tempos verbi-voco-visuais, foi a grande contribuição de todo um grupo de jovens pensadores no qual Décio se destacava. E o que ele escrevia sobre semiótica e arte tinha tudo a ver com a poesia que fazia, em larga batalha pelo desvendamento do sentido travada com o materialismo histórico (que Décio nunca desprezou) e com o próprio signo - o signo da comunicação de massa, da publicidade, da poesia visual e da nova arte que, previu Mondrian, não pode ser traduzida em palavras e se oferece apenas na pura visualidade e na execução da obra, ideia em tudo contemporânea.

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