Na disputa Globo X Record, a luz faz a diferença

Esta semana provavelmente deve ser a mais agitada do ano na TV. Fora a estréia de duas novelas na mesma noite - Sinhá Moça, de Benedito Ruy Barbosa, na Globo, e Cidadão Brasileiro, de Lauro César Muniz, na Record - vários paradigmas foram quebrados. O primeiro foi exibir capítulos inteiros sem intervalo, como na segunda-feira, inclusive na Globo que, pelo montante de compromissos comerciais, tem pouca margem de manobra em sua programação. Como o SBT nos bons tempos, a Record revirou sua grade e, ao contrário da bula escrita na Globo desde os anos 70, colou uma novela na outra e jogou o Jornal da Record para mais tarde. Isso quer dizer que destemidamente botou Cidadão Brasileiro para brigar com Jornal Nacional e com um bom pedaço de Belíssima. A valentia foi recompensada. Na segunda, a novela Prova de Amor marcou 20 pontos de média no Ibope (Grande São Paulo) e até improvisou uma participação especial do autor Lauro César Muniz e sua mulher, a atriz Bárbara Bruno, no capítulo. E Cidadão Brasileiro começou com 15 pontos de média, baixando para 13 na terça e na quarta. Essas audiências são absolutamente muito boas para os padrões da Record. Não é à toa que o clima nos bastidores da emissora do bispo é de euforia. Prova de Amor vem fazendo sua carreira em cima da cartilha da Globo, com temática (e ambientação aos pés do Pão de Açúcar), atores, técnicos e diretores oriundos das fileiras da líder. Em outra vertente, é o mesmo caminho de Cidadão Brasileiro. Ela é feita da costura que Lauro César Muniz tirou de tramas suas que marcaram época na Globo - O Casarão e Escalada. Como Sinhá Moça, o texto não é inédito e se trata de uma novela de época. Coincidência ou por querer, uma das protagonistas de Cidadão Brasileiro é Lucélia Santos que, em 1986, estava no lugar ocupado hoje por Débora Falabella como a sinhá moça, arrebatando o País com sua luta contra a escravidão e pelo amor do abolicionista Rodolfo. A "novela das 8" da Record tem uma boa história. Gabriel Braga Nunes interpreta Antonio Maciel, personagem central que conduz a trama de 1955 a 2006. No nome, esse personagem mistura os dois protagonistas das novelas escritas por Muniz há pelo menos 30 anos: João Maciel, de O Casarão, e Antonio Dias, de Escalada. Vendedor de agrotóxicos, Antonio sofre um golpe da trambiqueira Fausta (Lucélia Santos) no primeiro capítulo: ela lhe rouba uma boa quantia de dinheiro que deveria ser entregue a seu patrão. Fausta, ou Faustina, vai cruzar o caminho dele 20 anos depois. Há no elenco gente muito experiente que já integrou o primeiro escalão da Globo. Cecil Thiré, Afrânio Peixoto, Luiza Thomé, Tuca Andrada e Paloma Duarte, por exemplo. As locações externas são boas, bem cuidadas, e a composição da época - cenários e figurinos - está até bem feitinha. A trilha sonora tem qualidade, mas pouca coerência. Por exemplo, Ponteio, de Edu Lobo e Capinam, é uma bela canção, mas seria composta pelo menos 10 anos depois da época em que se passa a novela. É claro que existem defeitos. A maquiagem pesada das mulheres - em especial a de Paloma e de Lucélia - remete à estética over das novelas mexicanas. Como se nutriu nas fileiras da Globo para montar seu casting, equipe técnica e levando em consideração que hoje não há grandes dificuldades para adquirir aparatos tecnológicos moderníssimos, é meio decepcionante a qualidade da imagem vista no vídeo. A iluminação ainda é um problema grave fora da Globo. A luz distorce e enfeia cenas que parecem ter exigido grande esforço para serem preparadas. Fica mais chocante quando se compara com Sinhá Moça. Evidência de que a Globo não se acomoda sobre seus louros, a imagem da novela das 6 tem sido tratada com softwares sofisticadíssimos, que lhe dão a qualidade de cinema. E essa é uma grande diferença.

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