Na contramão da violência

Totalmente Inocentes tira onda dos filmes de favela

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

07 de agosto de 2011 | 00h00

Duas das maiores produtoras do Brasil, Mariza Leão e Iafa Britz, uniram-se para fazer... um blockbuster? Não, uma comédia. O que havia nesse projeto que o tornou tão especial? "É até arriscado dizer uma coisa dessas, mas a originalidade do roteiro nos conquistou", diz Mariza. Amiga de Iafa, elas sempre fantasiavam sobre a possibilidade de trabalhar juntas. Rodrigo Bittencourt, que escreveu e realiza Totalmente Inocentes, enviou cópias do roteiro para as duas. "Virou o nosso projeto", arremata Iafa.

O cinema brasileiro não tem muito a tradição das paródias - mas já teve. Nos anos 1950, as chanchadas da Atlântida celebravam uma estética da paródia por meio das obras de diretores como Carlos Manga e Watson Macedo, entre outros. Hollywood produzia o épico Sansão e Dalila? A Atlântida revidava com Nem Sansão Nem Dalila. Westerns como Matar ou Morrer? Oscarito e Grande Otelo pegavam em armas em Matar ou Correr.

Rodrigo Bittencourt carrega a nostalgia desse cinema bem popular. Criado no subúrbio carioca, ele tinha um amigo que era filho do dono de uma locadora. Viam todos os filmes - de lutas, de arte, comédias. A novidade é que, antigamente, as paródias da Atlântida podiam ser consideradas apropriações de Hollywood, um cinema de resistência cultural e política. Totalmente Inocentes parodia o próprio cinema brasileiro, a tendência que ficou conhecida como "favela movie", a partir do sucesso de Cidade de Deus, de Fernando Meirelles.

A cena que está sendo filmada nesta quinta-feira é emblemática. Totalmente Inocentes foi rodado em estúdio, em Paulínia - o filme beneficia-se dos editais da cidade que está despejando um bom dinheiro no cinema brasileiro (além de realizar o festival que distribui os prêmios mais vultosos do País). A cena deste dia é uma locação - em Americana. Um parque de diversões. As externas vão ser realizadas nos próximos dias no Rio, mais exatamente no Morro Santa Marta.

É uma cena do começo do filme. Um delírio do protagonista, Da Fé, interpretado por Lucas de Jesus. O garoto integra uma trinca de amigos. É do bem, numa favela polarizada entre a liderança de Do Mundo e Diaba Loira. Apesar do nome, a Diaba não é loira. "O Rodrigo gosta de reverter as expectativas", observa o ator que faz o papel, Kiko Mascarenhas. No sonho de Da Fé, ele está prestes a se casar com sua amada Gildinha, Mariana Rios. No delírio do protagonista, Gildinha aparece vestida como Lady Gaga. Do Mundo, Fábio Porchat, o outro dono da favela, é quem oficia o casamento. Gildinha diz que só casa com aliança - a joia desaparece e o sonho de Da Fé vira pesadelo. Só depois disso vai começar o filme, propriamente dito.

Tudo é muito colorido no parque de diversões de Americana. Rodrigo Bittencourt filma somente hoje neste ambiente. A cena termina com um amplo movimento de grua, descortinando todos os personagens. O diretor elogia Lucas, o Dá Fé. "Esse menino é muito bom." Ele tem um belo sorriso, totalmente inocente, como sugere o título. Mariza Leão diz o que a levou a embarcar no projeto. "O roteiro era um diamante bruto, que fomos lapidando." Nada de apelação. O ponto de equilíbrio é esse improvável encontro do cinema de arte que fascina Rodrigo Bittencourt com o popular, que também o atrai.

Há algo de Federico Fellini nessa profusão de palhaços e drag queens. O diretor não força a barra. Está lá para quem puder, ou souber, ver. Iafa Britz reflete sobre o gosto do público por comédias. "Está havendo uma generalização descabida. Quando dizem que as comédias estão alavancando o cinema brasileiro, as pessoas citam filmes que nem são comédias." Mas é um fato que Cilada.com, de José Alvarenga, já ultrapassou 3 milhões de espectadores e De Pernas Pro Ar, produzido por Mariza Leão, direção de Roberto Santucci, também bateu no número (e terá uma sequência).

"As pessoas colocam tudo no mesmo saco da comédia erótica, mas eu acho que De Pernas pro Ar é familiar. A picardia substitui a safadeza", diz Mariza. Iafa, que integrava o colegiado da Total Entertainment e produziu sozinha o fenômeno espírita Nosso Lar, vai mais longe. "O título de Totalmente Inocentes é quase uma definição. É uma comédia de erros, sem safadeza alguma. Ainda estamos pensando como vender um filme desses, que não se enquadra no que o público está acostumado a ver." A história, acrescenta Mariza, não tem protótipo. "A ingenuidade dos personagens e a forma como agem geram cenas cômicas e poéticas. Fico emocionada."

As duas produtoras e o diretor deram duro para que os personagens tenham consistência, mas eles também são caricaturas, o que quebra o estereótipo que o espectador tem no imaginário para cada um deles - o traficante, o policial, o jornalista. Neste dia, o próprio Rodrigo Bittencourt emociona-se ao acompanhar os atores no monitor de vídeo. "É muito bacana ver o filme sair do papel com atores tão talentosos."

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