Na contramão da política

Homens de Bem oferece uma raridade, o político honesto

O Estado de S.Paulo

31 de dezembro de 2011 | 03h05

E a Globo (re)descobriu o potencial da política como ficção. Depois do telefilme Homens de Bem, de Jorge Furtado, na quinta-feira à noite, janeiro deve trazer a minissérie O Brado Retumbante, de Euclydes Marinho, sobre um político de oposição alçado ao cargo de presidente pela morte do titular. Furtado escreveu Homens de Bem no auge do mensalão, há cinco anos. O filme talvez seja mais interessante que bom, mas essa é uma síndrome que persegue o diretor e roteirista da Casa de Cinema de Porto Alegre.

Desde que ganhou o Urso de Prata de melhor curta em Berlim por Ilha das Flores - um dos melhores filmes da história do cinema brasileiro, independentemente da duração -, Furtado tem sido cobrado. Todo mundo espera dele 'o' grande filme nacional. O próprio repórter tem feito essa cobrança. Em geral, os filmes de Furtado decepcionam a uma primeira visão, mas depois, vendo e revendo, dá para perceber as 'camadas' (e sua riqueza).

Homens de Bem começa de forma esquisita, muito falado e com uma proposta de debate sobre corruptos que parece extensão do noticiário da emissora. Passada essa primeira fase 'chata', a parte ficcional engrena - e o personagem de Rodrigo Santoro, Alcebíades, o Ciba, começa a exibir seu charme. É bom no que faz - como araponga - e ao mesmo tempo bate, arrebenta, faz amor. Um herói e, ainda por cima, de bela estampa, na tradição de Hollywood. Tanto Jorge Furtado sabe disso que a música e os diálogos - o tom geral - filiam Homens de Bem a uma tradição cinematográfica que remonta ao noir. Uma fina ironia perpassa o relato. Se não viu, Furtado absorveu, mesmo assim, os ensinamentos televisivos de Blake Edwards nas lendárias séries Peter Gunn e Mr. Lucky (muito mais do que em MacGyver, ao qual está sendo relacionado).

Como (tele)filme, Homens de Bem é quase esquemático. Santoro tem desenvoltura, Débora Falabella é ótima, mas os destaques do elenco são Fúlvio Stefanini e Virgínia Cavendish, como a delegada que atropela a operação armada por Luis Miranda para prender o maior bandido do País (Guilherme Webber). Existe hoje no Brasil o que se pode chamar de criminalização da política. Todo político, em princípio, é suspeito - de corrupção, desonestidade. Homens de Bem vai na contracorrente. A polícia burla a lei, Stefanini faz um político honesto e ainda denuncia que, para haver corruptos, é preciso haver corruptores. Na ficção de Furtado, é o homem do capital. Além de político, o filme é - ó, subversão - de 'esquerda'.

Crítica: Luiz Carlos Merten

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