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Na Colônia Penal

Os leitores dessa novela sabem como ela é atual. Traduz um pensamento cruel daqui e do além-mar

Milton Hatoum, O Estado de S.Paulo

12 de junho de 2022 | 03h00

Pense numa personagem de ficção, uma dessas figuras que jamais será esquecida. Por exemplo: Gregor Samsa, um dos pesadelos de Kafka e de todos nós. 

Samsa acorda transformado num inseto gigantesco e, enquanto lemos A Metamorfose, acreditamos que essa figura grotesca pode ser também humana, demasiado humana. Samsa nos assombra porque parece existir ou ter existido. A força da ficção reside nessa crença, forjada pela imaginação e concretizada pela linguagem.

O leitor, cúmplice do texto, às vezes interrompe a leitura para refletir sobre uma situação absurda, sobre um modo de sair do labirinto ou, quem sabe, influir no destino da personagem. Essa cumplicidade é um dos fascínios da ficção. Acompanhamos a trajetória de uma personagem e, com frequência, nos envolvemos com ela. Mas, ao ler certas obras ficcionais, o leitor não quer passar por aquela mesma experiência de vida. O malefício, a dor e o sofrimento devem permanecer nas páginas lidas, na fantasia que, por algum tempo, nos conduz a outra realidade. 

Ninguém quer acordar com o corpo de Samsa; ninguém deseja sonhar com certas passagens de Na Colônia Penal, essa outra novela notável de Kafka, que é, sem dúvida, uma das mais assombrosas da literatura europeia. Não convém resumir a história, mas sim ler o livro, traduzido com muito esmero por Modesto Carone. Basta dizer que essa novela invoca o passado, o presente (o tempo em que foi escrita) e aponta para o futuro: o hoje e o porvir.

Na colônia penal, os prisioneiros são torturados de um modo sádico, deliberadamente lento e sofisticado, até a morte. Nesse sadismo moroso – cuja evolução foi pensada e calculada com inúmeros detalhes por um comandante militar e executada por um mero oficial – está impresso o horror. Os leitores dessa novela sabem como ela é atual, um século depois de publicada. Mais realista, ou talvez menos fantástica que A Metamorfose, Na Colônia Penal traduz o pensamento perverso, cruel e totalitário de certos militares e políticos, daqui e do além-mar. 

Pense num presidente com seus filhos infames e em generais não menos vis que elogiam ditaduras e escarnecem de mulheres que foram barbaramente torturadas. 

Esses seres monstruosos – tão ativos neste País esfacelado – representam, de algum modo, o oficial sádico da colônia kafkiana. Eles ainda têm milhões de adeptos, mas a História nem sempre é uma sucessão de pesadelos… 

* Milton Hatoum é escritor e arquiteto, autor de Dois Irmãos e Cinzas do Norte

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