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Na cela, e sem celular

Não bastasse o confinamento em casa, há quem viva agora um confinamento telefônico

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2020 | 03h00

Um de seus sinais vitais, diria um médico, se acha preservado. Quando aperto o botão, e outra coisa não tenho feito nos últimos dias, na tela negra se acende, débil porém nítida, a imagem de uma pilha à qual não resta mais que um filete de carga. Mas isso é tudo o que se obtém da criatura, surda e muda há quase uma semana. 

Do alto de minha vasta e não especializada ignorância, e proibido de deixar a cativeiro covídico, fiz o que pude para resolver o problema sem recorrer a quem entende do assunto. Tentei de tudo – por pouco não cheguei à respiração boca a boca, e estive a pique de bradar, que nem Michelangelo ao finalizar seu Moisés, mas com aflição em vez de orgulho: Parla! 

Realizadas em clima de moderado desespero, todas as manobras apenas confirmaram, conferindo-lhes sentido inédito, o verso impresso num adesivo que há tempos colei na outra face do aparelho: “Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear”. Me perdoem, o autor e você, o sacrilégio de acrescentar meu verbo chinfrim a poesia de tão alta qualidade, mas não resisto à tentação da rima: “... E olha que Drummond nem tinha celular!”.

O poeta, uma vez mais, falou por mim, e foi sua sabedoria que me convenceu a entregar os pontos. Chega de perder tempo com esse infeliz!, aconselhou meu coração ressentido, e meia hora depois estava este infiel encomendando um novo telefone. Se o agonizante pudesse saber que está sendo trocado por outro, não só zero km como dois degraus acima na tecnologia dos iPhones... Mas é assim a vida, aí incluída a vida útil de um celular.

O sucessor ainda não chegou, e, na espera, me ocorre a hipótese paranoica de que o enjeitado queira se vingar de quem o abandonou enquanto agonizava. Se fosse eu, levaria comigo tudo o que trouxesse na memória, condenando assim o ingrato ao negrume de um mal de Alzheimer tecnológico: contatos, fotos, vídeos, até mesmo algum escrito que o pretensioso dono já considerava eterno, tudo se apagaria, forçando o mal-agradecido a recomeçar do zero. A menos, me disseram, que a carga acumulada esteja a salvo na tal nuvem – mas como poderia saber disso quem, em matéria de modernidades, está sempre a cair das nuvens?

*

A relativa incomunicabilidade em que a falência de um iPhone me precipitou até que teve uma compensação: a de reavivar em mim um verso da Elegia 1938, citado acima, e com ele a figura de seu autor. Faz sentido, pois Carlos Drummond de Andrade, como é sabido, tinha relação intensa com as telecomunicações. Tímido, reservado, o papo com ele, quando de corpo presente, nem sempre prosperava – mas, ao telefone, podia deslanchar, para surpresa às vezes de quem estivesse na outra ponta da linha.

Cioso de sua natureza de urso polar, como ele próprio rotulou-se num poema, Drummond tomava lá as suas precauções. Você está em São Paulo ou aqui no Rio?, perguntava ao interlocutor – no caso, ao poeta Mario Chamie, que, divertido, contava a história a amigos. Se a pessoa estivesse a tranquilizadora distância, a conversa podia avançar, porque para Drummond não haveria o risco de que o outro se oferecesse para visitar o urso em sua toca. Chamie não tardou a decifrar o estratagema. Estando no Rio, dizia que estava em São Paulo, e com a mentira venial afastava o perigo de o papo gorar já nas primeiras frases. Nada de pessoal, é bom esclarecer, pois Drummond simpatizava com Chamie. Na certa usava o truque com outros forasteiros. Já com forasteiras...

*

“Sabia que o Carlos, nessa idade, adora passar trote?”, me contou Fernando Sabino quando eu preparava uma reportagem sobre o poeta, então prestes a completar 75 anos. Ele próprio um moleque em seus 54, o romancista mineiro participava da brincadeira, que acabou desembocando numa disputa para ver qual dos dois “pegava” o outro. 

Houve um dia em que Sabino, naturalmente sem se identificar, fez saber ao escritor Otto Maria Carpeaux – com quem Drummond mantinha relação afetuosa porém cheia de cerimônias – que o poeta precisava falar com ele, urgentemente. Preocupado, Carpeaux ligou em seguida – e, ao cabo de uma conversa bamba, meio sem assunto, os dois, constrangidos, se deram conta de que tinham sido vítimas de um trote. 

Certo de ter passado a perna no adversário, Fernando Sabino ligou para tripudiar – e levou um contravapor: Isso é coisa que se faça? Envolver numa molecagem uma pessoa séria e respeitável como o Carpeaux, ainda mais usando o meu nome?! 

Sabino foi ouvindo e esfriando – até que o gelasse a estocada final, seguida do ruído de telefone sendo batido, sequer sem um ciao: Não desculpo não, desta vez você passou da conta! Quer saber? Nunca mais me dirija a palavra! 

E agora? – pensou Sabino, maldizendo-se pela leviandade com que pusera a perder amizade tão antiga e preciosa. E assim estava, destroçado, quando o telefone tocou e do outro lado veio, em vez de alô, uma gargalhada: Desta vez te peguei, seu sacana!

*

Por favor, não desligue. Semana que vem tem mais Drummond ao telefone. E, se não peço muito, um celular operante ao alcance da mão.

 

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