Na casa de Mozart, leitura moderna

Diretor transforma comédias do compositor em discussão sobre desejo e mortalidade

João Luiz Sampaio SALZBURG, O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2010 | 00h00

Don Giovanni. A Sevilha mozartiana instala-se numa floresta lúgubre, onde o tom de comédia é substituído pelo sentido trágico            

 

 

 

 

 

Se na terra de Mozart o que se faz com sua obra ganha ares de autoridade e referência, é justificada a atenção que a nova montagem da trilogia Da Ponte - óperas escritas pelo compositor em parceria com o libretista Lorenzo Da Ponte -, produzida pelo tradicional festival de verão da cidade tem despertado. O diretor Claus Guth, no entanto, não parece preocupado com tradições - como mostra a leitura extremamente pessoal de Don Giovanni, que tem récitas até o fim da semana na cidade, com elenco de estrelas e regência de Yannick Nézet-Séguin.

Além de Don Giovanni, completam a trilogia Cosi Fan Tutte e As Bodas de Fígaro. As três têm-se alternado no palco nos últimos anos em um processo que o diretor define como um "work in progress" contínuo, em que detalhes da concepção vão sendo retrabalhados, buscando um todo coeso, uma espécie de teoria sobre as mais célebres criações de Mozart para o palco. "Toda sua relação com o mundo, suas ideias sobre o homem estão nessas óperas", defende. As óperas foram filmadas e Don Giovanni e Cosi acabam de sair em DVD.

Eros e Tânatos. Don Giovanni recria as aventuras amorosas de Don Juan; nas Bodas, a serva Susanna usa todo tipo de artimanha para fugir dos avanços sexuais do conde; e, em Cosi, rapazes tentam comprovar a fidelidade das amantes. As comédias têm alguns dos temas musicais mais famosos de Mozart - para Guth, no entanto, são ponto de partida para uma discussão sobre a oposição entre Eros, encarnação do desejo e da beleza, e Tânatos, a personificação da morte.

"Nas Bodas, os personagens estão testando todas as possibilidades de prazer de maneira livre, sem julgamentos; em Cosi, o que era diversão vira cinismo. Já em Don Giovanni Eros não traz mais prazer, é obsessão." Para Guth, não se trata apenas do prazer da conquista - mas da necessidade de extrair da vida todo o prazer possível, criando uma oposição entre desejo e mortalidade.

Para tanto, o tom de comédia se esvai e dá lugar a um sentido trágico que domina toda a cena, que deixa a Sevilha mozartiana e se instala em uma floresta lúgubre, no meio do nada, que vai sendo desconstruída com o passar da ópera. A maior liberdade, no entanto, é outra: no embate com o Comendador, que abre a história, Don Giovanni não apenas o mata, mas é também ferido - e passa a ópera toda em direção à morte, até que, no fim, é tragado pelas chamas do inferno. "Nós todos precisamos morrer. A questão é o que fazemos com a nossa vida: nos conformamos e subordinamos ou tentamos nos libertar, quebrar todos os laços?"

Musicalmente comandado pelo maestro Yannick Nézet-Séguin, este é um Don Giovanni mais pesado, denso, em especial nos recitativos - o que exige um outro tipo de leitura por parte dos cantores, entre os quais foram destaque o barítono Christopher Malman, no papel título, Shrott como Leporello, a soprano Aleksandra Kurzaz (Dona Anna) e o tenor Joel Prieto (Don Otavio).

 

INTERVALO

Tango com Caymmi

O baixo uruguaio Erwin Shrott acaba de gravar um disco dedicado a tangos - mas incluiu no álbum É Doce Morrer no Mar, de Dorival Caymmi. "Queria ter colocado mais algumas, mas ficamos sem espaço", diz, em bom português. "Sou fascinado pelo Brasil e em especial pela Bahia." Em tempo: ele e o barítono Paulo Szot, paulista radicado em Nova York, estão preparando um recital dedicado inteiramente à música brasileira. Ainda sem data definida.

DVD para Elektra

A montagem da Elektra, de Strauss assinada, pelo diretor Nikolaus Lehnoff e o maestro Danielle Gatti, agradou tanto

o público do festival que a Unitel Classics resolveu correr para Salzburg e filmar as últimas récitas, realizadas ao longo desta semana. A ideia é

lançar a produção em DVD

até o começo do ano que vem. Entre os atrativos da montagem, está o grande elenco, do qual fazem parte Waltraud Meier e René Pape.

Raridades de Schumann

Depois de um tempo sumido do cenário, o pianista americano Tzimon Barto voltou a dar as caras em Salzburg, onde tocou no fim de semana com a Filarmônica de Viena, regida por Christoph Eschenbach. Executou um programa todo dedicado a peças para piano e orquestra de Schumann pouco interpretadas - a Introdução e Allegro Apassionato, Op. 92 e o Allegro com Introdução Op. 134 -, intercaladas pelas Variações Fantasma, para piano solo. S

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