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Na cama

Contam que o reacionário voltou de uma viagem antes do previsto e encontrou sua mulher na cama com outro homem.

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

21 de janeiro de 2016 | 02h00

– Quem é esse? – perguntou o reacionário.

– É o comunista – respondeu a mulher

– O quê?!

– Você não olha embaixo da cama todas as noites, para ver se não tem um comunista escondido?

– Olho.

– Pois hoje, como você não estava aqui, eu mesmo olhei.

– E aí?

– Tinha.

Boston. Fica-se sabendo pouco sobre a vida privada dos repórteres que investigam os casos de pedofilia acobertados pela Igreja Católica, no filme Spotlight – Segredos Revelados. Talvez para não desviar nossa atenção do que interessa, as idas e vindas, magnificamente filmadas, da investigação em si. A mesma preocupação em fixar-se na trama deve explicar a ausência de maiores detalhes sobre o que significava, em termos de audácia jornalística e pura coragem, enfrentar o assunto – que começou municipal antes de se tornar internacional – em Boston, o epicentro de uma certa cadeia de cumplicidades (tradicional corrupção política abençoada por uma igreja conservadora e poderosa, tudo quase absolvido pela simpatia irlandesa), de cuja força só se tem pequenos vislumbres, no filme. Foi em Boston que começou a dinastia dos Kennedy, com o patriarca Joseph, notoriamente ligado ao crime organizado e que, dizem, comprou o cargo de embaixador americano em Londres para si e, depois, a presidência dos Estados Unidos para o filho John. Seu filho mais moço, Edward, acabou sendo um representante de outra tradição política da Nova Inglaterra, onde fica Boston: a do engajamento social. Edward deixou um respeitável currículo de esquerda, como senador. Mas Joseph Kennedy personificou como ninguém a aristocracia bostoniana, devota e criminosa, que o filme, de certa forma, poupa.

O melhor de Spotlight é que a investigação é o filme. Assim como pouco vemos vida pessoal dos investigadores, não vemos nenhum “flashback” com cenas de sedução de menores. Não há vilões na trama. O que vemos são as vítimas, as consequências. O filme não precisa de monstros – a grande monstruosidade é o acobertamento. E o maior escândalo mostrado pelo filme vem no fim, nas legendas que mostram o desdobramento das revelações publicadas, e pelas quais ficamos sabendo que o cardeal banido de Boston pela sua inanição diante dos crimes foi para um alto cargo no Vaticano.

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