Na cabeça de Wayne

Músico que protagonizou revoluções fala ao ''Estado'' sobre Milton Nascimento, Miles e medos que afligem os jazzistas

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

13 de maio de 2011 | 00h00

O saxofonista Wayne Shorter, um dos maiores compositores da história do jazz, está a caminho do Brasil - a última vez que tocou aqui foi em 2005. Toca com um quarteto no dia 10, às 21 h, no Auditório Ibirapuera, em São Paulo, astro maior da primeira edição do BMW Jazz Festival (apresenta-se também dia 13, às 21 h, no Rio).

O músico, que completa 78 anos em agosto, tem uma relação de mais de 40 anos com a música brasileira. Ele integrou os Jazz Messengers de Art Blakey, tocou com Horace Silver, Miles Davis, Maynard Ferguson e astros do pop rock, como Stones, Joni Mitchell e Santana. Ganhou 8 prêmios Grammy, como compositor (1987, 1997 e 2003), solista (1999) e performer (1979, 1994, 1996 e 2003). Em 1970, com Joe Zawinul, criou o Weather Report, sinônimo de jazz fusion, escola de rupturas. Shorter falou ao Estado por telefone, de sua casa na Califórnia.

O sr. considera que o disco Native Dancer (1974), que o sr. fez com Milton Nascimento, é um disco revolucionário?

Sim. Gravamos o disco em uma semana, e tudo demorou 10 dias, entre produção e mixagem. Eu me lembro que foi pouco antes do Natal de 1974. Minha mulher me falava muito de Milton, e eu o tinha encontrado no Rio. Eu o chamei e ele não hesitou, veio com sua banda. As sessões de gravação foram em Santa Mônica, na Califórnia, no mesmo estúdio onde o Steely Dan gravou Naja. Foi tudo uma grande festa. Havia muita gente lá. A atriz Rachel Welch acompanhou. O cara dono do estúdio era casado com a atriz Leslie Caron, que fez Um Americano em Paris com o Gene Kelly. O engenheiro de som era casado com uma filha do Ingmar Bergman, e ela também estava lá. Essa era a atmosfera. Nós começamos a tocar e logo estabelecemos amizade e confiança mútuas. O Herbie Hancock estava gravando naquele momento a trilha de Death Wish, com o Charlton Heston, e o Herbie toca no disco. Foi um momento muito especial. O disco é importante porque mostra como aproximar duas visões da música sem que nenhuma delas seja submissa à outra. Nós não queríamos que Milton imitasse o jazz, e eu não conseguiria imitar o Milton. Conseguimos fazer algo muito complementar.

Muitos dos revolucionários do jazz hoje estão já com 80 anos, como Sonny Rollins, Yusef Lateef, Ahmad Jamal, Ornette Coleman. O sr. crê que não há mais possibilidade de acontecer alguma revolução no jazz?

Acho que as pessoas mais jovens estão procurando por algo, mas tenho a impressão que não buscam o suficiente. É preciso ter espírito forte, coragem, ser criativo. Digo isso não só para a música: é preciso ser criativo como marido, como esposa, como motorista de táxi. O jazz, para mim, significa não ter medo do desconhecido, do escuro. Não se pode ter medo do que vai acontecer adiante, se a gasolina vai acabar. Lembro de Art Blakey falando para um jovem músico que quis impressioná-lo: "Uau! Você tem uma grande técnica! Mas agora, conte-me uma história". É muito fácil para um jovem músico se esconder atrás do seu instrumento. Tem um documentário em que alguém pergunta ao Sonny Rollins o porquê da excelência de Charlie Parker, de Dizzy Gillespie, as razões do bebop, e ele respondeu: "Não tocamos para fazer música moderna, tocamos porque queremos ser humanos. Tocamos porque temos o direito de criar. Você não pode deixar a sociedade dizer o que você deve tocar, o que as pessoas devem ouvir". Claro que você deve procurar ser mais harmônico, ter mais variações, evitar a repetição. É o que falta ao hip-hop, por exemplo.

Muitos dos festivais de jazz, atualmente, estão tocando mais pop e rock do que jazz. Como o sr. vê isso?

O mercado mundo afora promoveu uma inundação de pop, rock, country, folk, tecno. Estão em todo lugar. Você para o carro no sinal vermelho e ouve: boom, boom, boom, pá! Acho que é um momento em que a gente deve estimular os jovens músicos que estudam a música erudita e estimulá-los a serem mais ousados e aventurosos. Estou fazendo isso agora, escrevendo música para orquestra, o que inclui o quarteto de jazz. Vejo que jovens músicos com formação clássica estão rompendo barreiras. Conheci recentemente a jovem baixista e cantora Speranza Spalding, estivemos juntos no mesmo festival na África do Sul. Ela surpreendeu todo mundo ao levar o jazz a ganhar o Grammy na categoria de jovem artista. É uma pessoa muito articulada, superinteligente. Abriu shows para Prince e tem a sensibilidade de uma grande poeta. Essas pessoas, como Speranza, podem fazer algo acontecer no espírito do jazz, renová-lo, abri-lo para as novas gerações. É o que se espera do jazz, que seja criativo e sem medo, sem intimidação.

O sr. sugere que se deva reinventar o jazz para as novas gerações?

Não gosto da palavra reinventar. Eu quero voar, man! Para mim, há um continuum na música. A continuação é mais importante do que a reencarnação. Você vê que as pessoas se tornam medrosas por conta de todas essas catástrofes que estão acontecendo. As tragédias podem fazer a gente ter vontade de parar de se mexer. Mas há algo que é constante e eterno, que é a nossa necessidade de aventura. Não se pode ter medo, é preciso celebrar a eternidade. As corporações hoje dizem que é preciso vender o simples. Mas a vida é complexa, não é simplificada para atender ao mercado. Mas não perco mais meu tempo ficando bravo com as corporações. Acho que as barreiras, os empecilhos, também são o lugar de onde a gente decola.

Quais são seus planos para seus próximos movimentos?

Vamos tocar em São Paulo, Argentina e Rio. Depois, vamos para Istambul, onde vou fazer uma turnê que celebra os 40 anos do disco Bitches Brew, que gravamos com Miles. Vou tocar com o Herbie (Hancock) e o Marcus Miller e mais dois garotos, um baterista e um trompetista. Também tocaremos coisas novas.

JuJu

Álbum lançado por Shorter em 1964, mostra grande influência de John Coltrane, com quem Shorter estudou, e é enquadrado como hard Bop.

Bitches Brew

Lendário disco de Miles Davis de 1970, tem influência do rock de Jimi Hendrix e traz Shorter em foco, tocando o sax soprano e compondo, como em Sanctuary.

Native Dancer

Gravado em 1974 por Milton e Shorter, é considerado um dos mais perfeitos exemplares do entrosamento entre a música brasileira e o jazz, e abriu portas.

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