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Humberto Werneck
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Na boca da piranha

146m em 17s. Um atleta da velocidade? Não, um cronista insensato num toboágua

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

02 Agosto 2016 | 05h00

Não posso dizer que não me preveniram. Até demais: durante os 40 minutos que esperei na fila, para chegar ao topo da torre de 32 metros de altura - algo como um prédio de 10, 11 andares -, meus ouvidos foram incessantemente martelados pelo mesmo aviso. Não deveria arriscar-se no toboágua quem pesasse mais de 100 quilos, medisse 1 metro e 40 ou menos, fosse gestante, portador de necessidades especiais, idoso ou hipertenso. Em vez de prestar atenção, fiquei imaginando alguém que reunisse todas essas características; como aquele personagem de Rubem Fonseca que, na praia, dá nota aos passantes, reservando o 10, jamais atribuído, a quem fosse anão, padre, preto, corcunda e homossexual.

Não creio que pelo toboágua do Hot Park, em Rio Quente, Goiás, espécie de Disneylândia da água morna, tenha deslizado algum portador de todas as características enumeradas no insistente aviso. Dei-me por liberado por não ser gestante, por pesar um pouco menos de 70 quilos e por ter ultrapassado em 33 centímetros a estatura mínima ali requisitada. Necessidade especial, por ora, talvez um cafuné, sem excluir eventuais desdobramentos.

Nada a fazer, porém, no quesito hipertensão, anomalia da qual cuida para mim o Diovan, que, com este nome de zagueiro, vem a ser o comprimidinho cor de tijolo que engulo todas as manhãs. E menos ainda no quesito idade, ai de mim, ex-jovem empurrado para a fatal linha de frente desde que se foram o Niemeyer e a dona Canô. Não, não estou esperneando contra o inelutável. Sou dos que se recusam a prorrogar com tinta a cor escura dos cabelos, e não me iludo se às vezes me afagam com um generoso “você está ótimo”; tendo visto o filme do Domingos Oliveira, sei que se trata apenas do terceiro e derradeiro estágio na vida de um homem, subsequente à juventude e à maturidade. 

Com o que me resta de prudência, mas sobretudo por medo, devo confessar, teria desistido de submeter a carcaça à temerária viagem pelos 146 metros do toboágua do Hot Park goiano. Tem necessidade?, argumentaria minha sábia mãe. Se não recuei, foi por insistência do Joaquim, para quem todos os sinais se acham verdes. Passo a passo, galguei os degraus da torre de madeira, stairway não to heaven, mas to hell. E por fim cheguei ao cadafalso, onde se escancara uma bocarra de piranha, à qual devem os aventureiros se entregar na insensata busca de emoções primárias. 

Chegada a minha vez, apoiei-me geriatricamente numa das presas de madeira do monstro, antes de me deitar num plano inclinado sobre o qual corria água, e adotar, obediente às instruções, postura idêntica àquela que será a última, com as mãos cruzadas sobre o peito. E lá fui eu, sem tempo para ouvir, conforme me contou depois o Joaquim, um funcionário avisar pelo rádio a um colega lá embaixo: “Vai aí um senhor...”.

O senhor em questão, naquele instante, começou a deslizar, desembestado, pelas entranhas de um tubo estreito que se pôs a chacoalhá-lo de maus modos de um lado para outro, nas curvas de uma serpentina alucinada, antes de embicá-lo, em linha reta descendente, para o que só poderia ser a morte. Diovan será pouco, cheguei a pensar, com o coração na boca, pela qual, aliás, entravam e saíam, assim como pelos ouvidos e narinas, golfadas de água fria. O mais assustador era a constatação de que nada podia fazer, nada, sequer usar as mãos e os pés na tentativa de frear o corpo na descida cada vez mais vertiginosa.

Tudo isso, soube depois, durou intermináveis 17 segundos, o tempo que tomou percorrer o tubo de ponta a ponta, da boca da piranha ao laguinho no qual, catapum! chuá!, fui diarreicamente despejado (sim, era assim que me sentia). Como no cálculo de um equivalente à altura da torre, recorri à matemática de meu irmão Otávio para saber que atravessara 146 metros à velocidade de 31 quilômetros por hora. Para que você tenha uma ideia: o velocista jamaicano Usain Bolt, bólido humano que voltará a nos assombrar na Olimpíada do Rio de Janeiro, cravou 38 km/h para bater o recorde mundial na prova dos 100 metros. 

Orgulho? Nenhum! Foi como simples coisa, como traste, que me vi arremessado no laguinho de 1 metro e 30 de profundidade, em cujo piso, cuspindo água, pererequei até a custo me aprumar. Da margem, um funcionário do Hot Park - provavelmente aquele a quem lá do alto preveniram da chegada de um senhor - perguntou como eu me sentia. Como me sentia? Mal e mal encontrei forças para erguer um vacilante polegar, na esperança de manter um mínimo de decoro perante a sádica plateia à beira do laguinho. Pelo menos não desembarquei com a sunga convertida, pelo atrito, em fio dental, como em seguida se passou com o Joaquim. 

Na próxima vez em que possa ter atendida minha necessidade especial de cafuné, pedirei a quem o faça que proceda à contagem dos novos fios de cabelo branco que o toboágua de Rio Quente me proporcionou.

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