Na Berlinale

Em Berlim, três filmes medianos, um deles é de Gus Van Sant, captam o mal-estar contemporâneo

LUIZ CARLOS MERTEN , ENVIADO ESPECIAL / BERLIM, O Estado de S.Paulo

09 Fevereiro 2013 | 02h06

E a neve cobriu a cidade de branco. Agora, sim, a 63.ª Berlinale começou de verdade - com muito frio, mas, por enquanto, uma seleção que parece indecisa, com exceção do suntuoso The Grandmaster, de Wong Kar-wai, na abertura, na quinta-feira. Já foram exibidos três concorrentes, e mais parecem filmes médios, a despeito de integrarem a programação de um dos maiores eventos de cinema do mundo.

O austríaco Ulrich Seidl mostrou Hope, que integra a trilogia Paradise, com a qual, ao contrário da indicação de um possível paraíso na Terra, o diretor parece mais interessado em desvendar o horror do mundo. O que se passa com esses austríacos? Michael Haneke é outro misantropo, que não acredita muito no humano - embora diga o contrário -, mas pelo menos filma um pouco melhor em Amor, que está lhe valendo verdadeira consagração internacional.

A polonesa Malgozka Szumowska vem de um país fortemente católico. Seu longa In the Name of levanta interessantes questões de ordem não apenas religiosa. Em nome de Deus? Do amor? Um padre vai oficiar numa comunidade de jovens (todos do sexo masculino), numa região remota do país. O padre arde de desejo pelos corpos dos garotos, e o de um garoto em especial, mas não é, como nos anuncia, um pedófilo. Quando o desejo se concretiza, ele vira um degrau da ascese do garoto escolhido.

É um filme sensível, com muitas cenas bonitas, mas parece obra de estreante que ainda não domina seus meios. Malgozka mistura muita coisa - sexo (homo e hetero), problemas sociais, o angustiante silêncio de Deus. Na abertura, ela parece que vai direcionar seu filme numa via - uma câmera solta, brincadeiras desagradáveis. Depois, muda e chega ao homoerotismo. Nada fica resolvido nem muito claro. Uma conversa ouvida na saída da sessão, entre três pessoas, revelou três diferentes maneiras de absorver o que elas assistiram. Pelo visto, ninguém viu a mesma coisa e o cinema talvez seja isso - o que cada um projeta no que o diretor, aqui a diretora, está propondo.

Gus Van Sant não tem essa abertura toda. É um autor meio esquizofrênico e, se por um lado faz filmes que indagam a linguagem - como Elefante, que lhe deu a Palma de Ouro -, ele também tem a tendência a fazer filmes de um perfil narrativo mais tradicional, como Milk e Gênio Indomável, que foi sua primeira parceria com o ator e roteirista Matt Damon. O cinéfilo se lembra de que Damon e Ben Affleck dividiram o Oscar de roteiro pelo filme anterior. Damon agora escreve de novo, em parceria com John Krazinski e os dois fazem os protagonistas de Promised Land.

Esse Gus Van Sant mais popular (populista?) tem em comum com o outro o fato de abordar questões relevantes - violência, homossexualidade, aqui a atividade de uma empresa de economia global que se aproveita da crise para forçar fazendeiros a venderem suas terras para exploração de gás. Matt Damon compra em nome da companhia. É bom no que faz. Topa com Krazinski, um ecologista que sabe do dano que o método causa ao meio ambiente. Para dar mais intensidade ao conflito entre ambos, há a personagem da garota, Josephine DeWitt. O problema é que a gente já viu esse filme muitas vezes, e melhor. E o fato é que Van Sant, sendo tradicional, não precisava ser tão convencional. A falta de sutileza é tão grande que Krazinski se chama Noble, Nobre, para o caso de o espectador não captar.

O filme austríaco pelo menos pega pesado, sem nenhuma aparência ou disposição de bom-mocismo. Num filme anterior da trilogia, Ulrich Seidl mostrou uma mãe que deixava a filha numa espécie de resort e partia para a África em busca de sexo com os nativos. Agora, ele mostra o que ocorre com a filha. O resort é um centro de dieta que acolhe crianças e adolescentes obesos.

A mãe do filme anterior também era obesa, se lhe interessa saber. Gordinha (sejamos afáveis) e carente, a garota divide o quarto com mais três colegas. As conversas sobre sexo são pura escatologia, como nos filmes do norte-americano Larry Clark. Não há nenhuma novidade por aí. Nem no desejo que a garota projeta num professor mais velho, que ora parece que vai ceder ao seu avanço, ora tenta estabelecer distância. Com pedofilia não se brinca, como sabe o padre de Em Nome de.

O que há, no limite, de interessante no filme de Seidl é o senso de disciplina que o professor de ginástica vive tentando inocular nos jovens. Eles passam o filme para lá e para cá, repetindo exercícios intermináveis ou sendo forçados a se calar, reprimir, tudo em nome da ordem. Essas coisas não terminam bem, como você pode imaginar. Somente acirram problemas internos. Em três filmes, Berlim já mostrou que o estado do mundo não anda nada bem. Teria ajudado se, pelo menos, o do cinema estivesse melhor, mas, até agora, nada.

/ L.C.M.

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