'Na ausência de epopeia, resta o vazio'

Após dois anos da publicação de Os Sertões, Euclides da Cunha foi designado chefe da Comissão Brasileira de Reconhecimento do Alto Purus. Criada pelo barão do Rio Branco, ministro das Relações Exteriores, a comissão tinha como objetivo resolver dúvidas relativas às fronteiras entre o Brasil e o Peru, após a cessão do território do Acre pela Bolívia.

Francisco Foot Hardman,

24 de agosto de 2009 | 15h23

 

Antes da viagem, o escritor já havia publicado artigos sobre o problema da fronteira na Amazônia no Estado. No primeiro deles - Contra os Caucheiros -, defendeu a ideia de que era um equívoco enviar tropas para aquela região, pois caberia aos sertanejos que para lá migraram atraídos pela borracha a defesa do território. Argumento posteriormente utilizado em inúmeros textos, a imagem do sertanejo forte - garantidor da integridade do território - não esteve infensa a controvérsias. Foi o caso, por exemplo, da repercussão do discurso do deputado federal mineiro Carlos Peixoto, no contexto da 1ª Guerra Mundial, em que ele afirmava a possibilidade de recrutar os sertanejos para o esforço de guerra. Em resposta, o médico Miguel Pereira contrapôs a realidade de um Brasil vitimado por doenças, como a malária e a doença de Chagas - uma legião de doentes e imprestáveis -, resumindo sua tese na conhecida frase "o Brasil é um imenso hospital".

 

No artigo Entre o Madeira e o Javari, Euclides retomou o tema, defendendo a necessidade de trabalho persistente do governo brasileiro na região com o objetivo de efetiva incorporação, o que demandaria a facilidade de comunicações e, sobretudo, o traçado do telégrafo, objetivo colocado em prática três anos depois com a criação da Comissão de Linhas Telegráficas Estratégicas do Mato Grosso ao Amazonas, a célebre Comissão Rondon.

 

Há um interessante ponto de contato entre a elaboração de Os Sertões e a dos escritos amazônicos. A Guerra de Canudos foi objeto de artigos do autor antes de sua ida à localidade conflagrada do sertão baiano como correspondente de O Estado de São Paulo. De modo semelhante, Euclides da Cunha escreveu sobre a Amazônia sem conhecê-la, apoiando-se, entre outros, nos escritos de Alexandre Rodrigues Ferreira, Alexander von Humboldt, William Chandless, Tavares Bastos, Alfred Wallace, Frederick Hartt e Walter Bates. Em ambos os casos, os textos elaborados após as viagens ganharam em complexidade e foram marcados pela ambivalência entre a crença no progresso e a denúncia de seus problemas e contradições.

 

A tensão entre ideias preconcebidas e a experiência da viagem é bastante acentuada no relato sobre a missão na Amazônia, mas não se pode ingenuamente afirmar um efeito imediato da observação in loco, pois havia muitas mediações. Em seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, Euclides observou que portava uma visão altamente idealizada, mas ao ver o Rio Amazonas, sua reação foi absolutamente negativa. O rio foi percebido como um diminutivo do mar e não entendia como se poderia atribuir valorização positiva à natureza amazônica. Afirmou, porém, que, após ler o texto do cientista Huber do Museu do Pará (atual Goeldi), mudou radicalmente de opinião. Viu-se como que diante de uma nova página do Gênesis - tratava-se de um mundo em criação onde o homem teria chegado antes da hora. Passa, então, a construir todo um argumento sobre a tensão permanente entre homens e natureza.

 

Imagens euclidianas - tanto as presentes nos textos amazônicos como as mais conhecidas de Os Sertões - ecoam nas narrativas de outras viagens. Roquete Pinto, por exemplo, publicou em 1917 o livro Rondônia, relato de sua ida aos então chamados sertões no noroeste em 1912, como integrante da Comissão Rondon. Na descrição que faz do sistema de barracões, das condições de vida e de trabalho dos seringueiros são nítidas as referências da obra euclidiana. O seringueiro é apresentado como estrangeiro na própria terra, alusão à conhecida imagem literária cunhada por Euclides.

 

O mesmo ocorreu com as expedições científicas do Instituto Oswaldo Cruz durante a Primeira República, como evidenciam os relatórios elaborados pelos cientistas. É o caso da expedição de Oswaldo Cruz à região em que estava sendo construída a ferrovia Madeira-Mamoré. E também das viagens de Carlos Chagas à Amazônia, em 1913, e a de Arthur Neiva e Belisário Penna por extensa área percorrida pelos Rios São Francisco e Tocantins. Considero importante pensar Euclides da Cunha no contexto dessas viagens, verdadeiras missões republicanas, nas quais o conhecimento e a incorporação do território, base para a construção do Estado nacional, constituem-se em aspectos indissociáveis. Uma das faces dessas viagens era o que se propalava, então, como esforço de incorporar os sertões.

 

É este um dos sentidos em que se pode pensar a Amazônia como um outro sertão, pois o termo denotava os espaços geográficos mais diversos. A já citada Comissão Rondon, por exemplo, mencionava a área entre Mato Grosso e Amazonas como sertões do Noroeste; mesmo o oeste de São Paulo foi designado como sertão em fins do século 19 e início do século 20. Na verdade, sertão significava os espaços tidos como incivilizados, distantes do litoral e da autoridade do Estado.

 

Mas há outro sentido para esta ideia da Amazônia como um outro sertão e consiste no encontro do personagem principal do drama nacional escrito por Euclides: o sertanejo do Nordeste (região que ainda não era assim designada) que rumara para a região amazônica . É o que podemos ler nas belas páginas de Terra Sem História, sobretudo no capítulo Judas Ahsverus. Além de trabalhar para escravizar-se, esse personagem teria que lidar com uma natureza que o surpreendia e expulsava: "Diante do homem errante, a natureza é estável; e, aos olhos do homem sedentário, que planeje submetê-la à estabilidade das culturas, aparece espantosamente revolta e volúvel, surpreendendo-o, assaltando-o por vezes, quase sempre afugentando-o e espavorindo-o."

 

Muito do que falamos sobre o Brasil como nação tem um forte lastro nos textos de Euclides. Apesar de menos lembrados, os ensaios amazônicos reforçam a tese de uma formação histórica marcada por contrastes e potenciais antagonismos, e demonstram, assim como seu livro clássico, a força social que ideias podem alcançar.

 

A chamada literatura dos viajantes, cronistas coloniais e naturalistas românticos ao primeiro ficcionista, todos , e cada um a seu modo, tentaram representar o sublime da paisagem amazônica em seu desmensuramento real e maravilhoso, que guarda igualmente os segredos do deslumbramento e do horror.

 

Euclides da Cunha foi dos primeiros escritores latino-americanos modernos a encarar o desafio de descrever a, digamos entre aspas, "Amazônia". Sua prosa amazônica inconclusa testemunha alguns dos dilemas daquela geração de literatos, e a Amazônia surgiu como essa fronteira, como esse desafio.

 

Entre dilemas aparentes e contraditórios está o da ausência de epopeia, pois ali se trata antes da vertigem do vazio. Como fazer a história, como narrar essa "miniatura trágica do caos"? Essa é uma imagem muito bonita e muito interessante que Euclides utiliza em vários momentos do seu relato amazônico.

 

O desenho do nacional vai adquirir contornos fantasmagóricos, contraditórios, por se tratar, antes de mais nada, de uma região internacional. No triplo sentido, tanto de abranger áreas pertencentes a vários Estados-nação, ser a ampla planície de povos indígenas exterminados e insepultos, ou em vias de extermínio, ou mesmo ainda não localizados naquele momento e por abrigar desde há muito e cada vez mais projetos econômicos predatórios. Estamos falando naquele momento do ciclo da borracha, no boom da borracha, na exploração do látex, e voltados significativamente para a exportação de matéria-prima para o Exterior.

 

Euclides então realizou essa viagem oficial. Ele estava em missão do Ministério de Relações Exteriores, já recém-contratado num cargo de confiança pelo ministro Rio Branco. E ele aceita com muito empenho a missão, que era contribuir para dirimir conflitos na fronteira com o Peru. Conflitos entre seringueiros, caucheiros e seringalistas que estavam levando para um impasse político-militar de crescente gravidade. Essa comissão é uma comissão mista brasileiro-peruana. Esse caráter de missão diplomática - Euclides estava ali como homem do governo, do Estado brasileiro - precisa ser assinalado. Euclides traçou as primeiras cartas geográficas importantes do Alto Purus, documentos que estão até hoje no Palácio do Itamaraty.

 

Mas vamos voltar para o plano menos conhecido, que é o lado poeta do escritor que Euclides nunca deixou de ser. Euclides foi um escritor, um literato e sobretudo um poeta. Sua poética se extravasa na prosa. Por isso, a revelação dessa poesia pode revelar aspectos da prosa.

 

Dessa viagem existem alguns cartões que ele mandou para amigos, o que nós chamamos de poesia postal. São raros os cartões que sobreviveram. Encontrá-los é quase uma pesquisa arqueológica.

 

Há um primeiro poema, uma quadrinha, que ele manda ainda de Fortaleza, numa parada do navio, para o amigo Rodrigo Otávio, poeta, escritor e grande interlocutor: "Minha jangada de vela/Que o vento vai levar/De dia, vento da terra,/De noite, vento do mar."

 

O Ceará é um marco importante para Euclides. Em vários momentos em À Margem da História ele reporta a importância das grandes levas de migrantes que saíram do Ceará, a partir da seca terrível de 1877, rumo à Amazônia.

 

No dia 5 de fevereiro de 1905, de Manaus, Euclides remete um postal, com cena de um casebre à beira de um manguezal litorâneo de Pernambuco, há quem diga que destinado a Machado de Assis, embora isso não se tenha podido confirmar: "Nesta choupana de roça/ De aparência tão tristonha/ Mora, às vezes, uma moça/ Gentilíssima e risonha/ E o incauto viajante/ Quase sempre não descobre/A moradora galante/ De uma choupana tão pobre/ Que passa na sua lida/ Para a remota cidade/ Deixando, às vezes perdida/ Num ermo, a felicidade."

 

Em seguida, um outro postal, muito bonito, já com ambiente amazônico, também remetido de Manaus, onde ele escreve: "Estas lagoas de esplendores/ Tão vivos à luz dos luares/ Emolduradas pelas flores/ Dos lírios e dos nenúfares/ Recordam-me, veja a afoiteza/ Da minha fantasia ao vê-las,/ Grandes espelhos para/ A toalete das estrelas."

 

Vejam que o escritor, expedicionário, engenheiro, ex-militar, homem de ciência, nunca descartaria a condição de criador literário, de alguém que estava, de alguma maneira, divagando com as imagens que podia de alguma maneira, nos intervalos, nas raras folgas de seu trabalho de chefe de expedição, fazer e remeter. Essa sinuosidade, que lembra um pouco a sinuosidade impressionante do Rio Purus, que ele ajudou a mapear, de alguma maneira atesta a vertigem, a contradição, a incompletude, o fragmento, presentes sobretudo na fase final de sua obra.

 

Chegamos a um soneto, escrito por Euclides sobre uma fotografia da expedição, em Manaus, e de lá remetido a vários amigos. Ele ficaria estacionado na capital amazonense por vários meses, reclamando dos atrasos, da falta de embarcação, porque depois, de fato, iria pegar o Purus na vazante, na pior época.

 

"Se acaso uma alma se fotografasse/ De modo que nos mesmos negativos/ A mesma luz pusesse em traços vivos/ O nosso coração e a nossa face.// E os nossos ideais, e os mais cativos/ De nossos sonhos.../ Se a emoção que nasce em nós/ Também nas chapas se gravasse/ Mesmo em ligeiros traços fugitivos.// Poeta! tu terias com certeza/ A mais completa e insólita surpresa/ Notando, deste grupo bem no meio,// Que o mais belo, o mais forte e o mais ardente/ Destes sujeitos, é precisamente/ O mais triste, o mais pálido e o mais feio..."

 

Eu diria que, sobretudo no fim da vida, Euclides sonhava com uma linguagem que sintetizasse as verdades da ciência e da arte. Isso está documentado em várias de suas cartas, em vários de seus artigos e discursos. É uma espécie de obsessão dele. No século 20 era quase uma necessidade, um imperativo da razão, a ciência e arte buscarem uma espécie de linguagem de síntese. Evidentemente que Euclides, não tão modestamente, pretendia, com sua escrita e seu estilo, estar no rumo dessa síntese entre ciência e arte. Buscava isso tanto em seus relatórios técnicos, em sua prosa ensaística quanto nesses continuados exercícios de poesia.

 

m dezembro de 1904, quando Euclides da Cunha desembarcou em Belém, já havia lido vários relatos de viajantes e naturalistas sobre a Amazônia. Numa carta a Coelho Neto enviada de Manaus, ele cita o título do livro que pretendia escrever - Um Paraíso Perdido -, "onde procurarei vingar a Hileia maravilhosa de todas as brutalidades das gentes adoidadas que a maculam desde o século 17". Euclides não teve tempo para realizar essa vingança intelectual. Mas escreveu sobre a região vários artigos e ensaios, reunidos no livro Contrastes e Confrontos e na obra póstuma À Margem da História.

 

Nos ensaios de À Margem da História, sua visão sobre a Amazônia é pendular: a natureza é portentosa, o clima é dotado de uma "função superior". No outro extremo do pêndulo, prevalece uma visão negativa, em que a natureza é destruidora, pois o caos, a desordem e a inconstância são fatores de degradação humana. Algumas frases, de forte efeito retórico, resumem sua visão: "A natureza soberana e brutal, em pleno expandir de suas energias, é uma adversária do homem." O homem a que se refere Euclides é o forasteiro, não o nativo. Na visão do escritor, as sociedades nativas - índios e caboclos - são inaptas para desempenhar papel relevante no processo civilizador da Amazônia. Euclides se contradiz para tentar provar que aquele território é uma terra sem história. Em vez de se vingar "de todas as brutalidades das gentes adoidadas que maculam a Amazônia desde o século 17", ele recorre a essas mesmas crônicas e relatos do passado para afirmar que a raiz dos vícios da terra é a preguiça.

 

Quem adquire relevância nos estudos euclidianos é o brasileiro que se desloca do Nordeste para trabalhar na Amazônia. São os sertanejos - parentes próximos dos conselheiristas combatentes de Canudos - que se encontram no centro das suas análises histórico-sociais. O "caboclo titânico" é o nordestino do sertão. O seringueiro, "o homem que trabalha para escravizar-se". Euclides escreveu palavras apologéticas sobre o seringueiro, pois este sobreviveu ao regime de trabalho semiescravo que lhe foi imposto e resistiu à natureza tumultuária e inconstante. Um herói de feição quase romanesca, cujos atributos são "a força titânica, a vontade, a pertinácia, um destemor estoico e até uma constituição física privilegiada".

 

Se Euclides teceu uma visão distorcida sobre os caboclos da Amazônia, não se pode dizer o mesmo em relação aos índios peruanos e seringueiros brasileiros. A meu ver, um dos textos mais densos de À Margem da História é Judas Ahsverus. Nele, o olhar cientificista dá lugar a uma figuração das relações sociais, em que a imaginação, inspirada na experiência de quem de fato testemunhou a vida dos trabalhadores nos seringais, constrói um quadro melancólico durante o sábado de Aleluia, quando "os seringueiros vingam-se, ruidosamente, dos seus dias tristes". Em Judas Ahsverus há um olhar sobre a história, a geografia, a religião e o meio socioeconômico, mas sem um narrador que pretenda enquadrar numa hierarquia de valores os seres de quem fala. O relato tende a ser menos explicativo e muito mais literário. O ornamento e a pompa da linguagem são atenuados por uma escrita sóbria, cujo conteúdo de verdade convence muito mais do que uma mistura de cientificismo com etnografia ingênua.

 

Não menos relevantes são as duas páginas finais de Os Caucheros, em que Euclides narra uma visita a um posto abandonado, pouco acima do Shamboyaco. A casa principal, do seringalista, e as vivendas menores, dos empregados, estão destruídas, arruinadas pela "mata que reconquistava o seu terreno primitivo". Aí, de fato, a natureza se regenera, sem ser brutal ou perigosa. O que de fato é brutal e mesmo trágico é o destino do ser humano. Euclides e os membros da comitiva descobrem num dos casebres o último habitante do lugar: um índio. Não se sabe se ele pertence à etnia amauaca, piro ou campa. Com o corpo deformado pelo impaludismo, esse pobre-diabo foi abandonado pelos companheiros. O que impressiona nesse breve texto é como o narrador junta muitas coisas em apenas 50 linhas. Do ponto de vista literário e histórico, penso que é tão incisivo e sugestivo quanto algumas passagens da novela O Coração das Trevas, de Joseph Conrad.

 

Um índio agonizante, abandonado numa tapera. Um corpo - uma coisa indefinível - que assemelha "menos um homem que uma bola de caucho ali jogada a esmo". O ser humano degradado se confunde com a mercadoria. Corpo e caucho, simbolicamente juntos, pertencem ao reino das ruínas, que não exclui a língua, pois a fala do índio agonizante é incompreensível. Rompida a comunicação, a única palavra em castelhano que ele consegue balbuciar é: Amigos. Para Euclides, essa palavra é dirigida aos "desmandados aventureiros que àquela hora prosseguiam na faina devastadora".

 

Mas há uma terrível ambiguidade quanto ao destinatário da palavra balbuciada. Ela pode ser dirigida ao próprio Euclides e aos membros da comitiva. E por que não pensar que "Amigos" é uma palavra destinada também aos leitores? Nós mesmos, que estamos lendo este texto e ouvindo o eco dessa palavra balbuciada por um "lastimável aborígine sacrificado". Porque, mais de um século depois, nós também somos espectadores dessa realidade trágica, cujos protagonistas Euclides nomeia "construtores de ruínas".

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