RAIMUNDO PACC
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Roberto DaMatta
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Na aldeia dos mortos

Era uma comunidade de ‘almas’ situada no poente, o lugar da misteriosa escuridão noturna

Roberto daMatta, O Estado de S.Paulo

08 de dezembro de 2021 | 03h00

Quando eu era jovem e estudei a vida dos índios timbiras, fiquei intrigado com uma muito falada aldeia dos mortos. Para eles, era uma enorme comunidade de “almas” situada no poente, o lugar da misteriosa escuridão noturna. Na minha cabeça, a aldeia era, é claro, uma imagem do outro mundo tal como os nativos o concebiam.

Um dos meus professores me garantiu que sabia como chegar a essa aldeia onde os mortos moravam e viviam uma longa vida. Existência, porém, sem gozo ou sofrimento. No mundo dos mortos era tudo igual, mas muito mais tênue, e o meu professor apinajé de teologia definia as diferenças pelo sangue: o nosso é vermelho, o dos mortos, dizia com o fervor dos crentes, era verde-amarelado. Por isso, os mortos jamais sentiam emoções fortes como raiva ou inveja. Era um mundo igual ao nosso, mas tão suave como a saudade dos entes queridos que nela residem.

Um dia, eu resolvi visitar a tal aldeia. O meu professor me deu um caldo, que bebi de um só gole. Mas o que vi em seguida não foram mortos, mas uma Niterói ensolarada, na qual eu recebia abraços dos meus vivos e mortos. Não havia inflação, populismos ou roubalheiras...  Voltei a mim ouvindo as gargalhadas dos meus amigos indígenas. Um mundo sem culpas ou dores era irreal...

Numa manhã de julho, um jovem etnólogo americano da Universidade da Nova Caledônia passou pela nossa minúscula e pobre aldeia. Foi recebido com alegria pelo meu companheiro Melatti e por mim e, depois de comermos um pedaço de porco assado com farinha, ele contou: “Estive com os nativos timbiras-panaremkrãs isolados no alto Ipavuna (um dos igarapés-rios afluentes do Rio Praia Alta que banhavam a nossa aldeia) para onde espero seguir depois de amanhã. Lá, vejam vocês, eu visitei a aldeia dos mortos e nela vivi por três semanas”.

Meu colega me olhou como quem diz: só nos faltava essa... Mas o rapaz – seu nome era Chris Dove – continuou acendendo calmamente um cigarro velho de um maço amarfanhado. “É verdade, my friends, a aldeia fica mesmo no poente, anda-se muito, mas graças a uma poção muito amarga que bebi de um curandeiro lá cheguei.” Passamos, prosseguiu ele, por algumas fronteiras tipo Divina Comédia. Primeiro, atravessamos um vasto lamaçal apinhado de enormes mosquitos, depois veio um cipoal coroado de espinhos, que me cortaram os braços e as pernas, mas, finalmente, enxergamos numa depressão o círculo perfeito das casas que todos conhecemos. 

* É ANTROPÓLOGO SOCIAL E ESCRITOR, AUTOR DE ‘FILA E DEMOCRACIA’

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