Mystérios e Novidades leva arte popular a Roma

Quem já ia ao teatro nos anos 80, em São Paulo, deve se lembrar das delícias que o grupo Tesouro da Juventude, de Lígia Veiga, produzia. Sempre que o grupo se juntava a outros projetos artísticos adotava o nome de Grande Cia. de Mystérios e Novidades - o que já indicava o fino humor que cercava aqueles espetáculos. Essa história continuou depois, nos anos 90, com a Cia. Mystérios e Novidades, também dirigida pela mesma Lígia Veiga - aos poucos, o seu trabalho foi se interessando pelas produções que faziam da rua o seu palco. Na São Paulo dessa época, quem falasse em perna-de-pau citava Lígia Veiga, que havia criado dentro da Cia. de Mystérios e Novidades uma pioneira Banda de Perna-de-Pau. Desde então, a companhia vem cumprindo uma bela agenda internacional e realiza agora mais uma dessas viagens. Desta vez, leva duas de suas produções, Pajelança e A Saga de São Jorge, ao Festival de Teatro Urbano, em Roma, "um festival muito importante no gênero, que nunca convida gente de tão longe", conta Lígia Veiga ao Estadão, em entrevista telefônica. As apresentações começaram na quinta-feira e prosseguem até quarta, no Castelo de Sant´Angelo, quase em frente do Vaticano. Os 14 membros da Cia. de Mystérios e Novidades voltaram recentemente de uma turnê que começou na Expo 2000 em Hannover, Alemanha, a convite da produtora Dell´Arte. "O convite nos surpreendeu, pois essa empresa se caracteriza por produzir música clássica e balé, e nem sabíamos como eles nos conheciam; depois, descobrimos que um amigo havia entregue nosso book a eles." Expo 2000 - Ao lado de um grupo de maracatu, eles abriram a Expo 2000 e realizaram depois mais quatro espetáculos na Alemanha, dois com Pajelança e dois com A Saga de São Jorge. "Pajelança nasceu do livro Música de Feitiçaria no Brasil, de Mário de Andrade, sobre o qual criamos um trabalho alegórico que percorreu o itinerário Sesc do evento que celebrava Mário de Andrade no ano passado, sendo mostrado em 35 cidades do interior de São Paulo com enorme sucesso." De lá, também com produção da Dell´Arte, os artistas apresentaram Pajelança na Piazza Navona, em Roma. Depois, seguiram com produção própria para a Áustria, onde realizaram cinco espetáculos em Graaz e Kumberg. "Em Kumberg, que é pequena, quase uma vila, a prefeitura bancou parte da montagem, o que muito nos surpreendeu, e a mostramos num lago." Foi quando encontraram Franz Zebinger, compositor que está escrevendo a ópera Apocalypse, para cuja montagem convidou o grupo. "Ele também vai participar do nosso próximo projeto, A Nave Louca, que contará ainda com meu ex-diretor, Enrico Masseroli; a idéia é que cada um trabalhará no seu canto, a partir da sua cultura, e nos juntaremos apenas depois, lá mesmo, para as apresentações." Enrico Masseroli dirige o Teatro Pirata, uma companhia austro-italiana de teatro de rua com quem Lígia Veiga trabalhou durante os cinco anos em que viveu na Europa, entre 1985 e 1990. Ao voltar ao Brasil, Lígia foi trabalhar no Teatro Brincante, de Antonio Nóbrega, onde encontrou Romero Andrade Lima. "Montamos uma companhia, começamos a desenvolver uma parceria, e foi lá que o desejo de fazer teatro de rua ficou mais claro." Com os espetáculos de rua, já foram a Portugal (em Cascais, para o Festival Almada), à Romênia (Festival de Sibiu), à Alemanha (em Berlim, no Theater der Velt) e à Hungria (em Nirbartor, para o Festival Flying Dragon). "O Flying Dragon, totalmente medieval, ocorre numa pequena cidade a cinco horas de Budapeste, começa com uma parada da qual participam todas as autoridades - tipo prefeito, ministros - e durante a qual se inaugura o dragão que dá nome ao festival, que é queimado no rio da cidade ao fim do evento." Lá, eles se apresentaram para um público de 3 mil pessoas. "Encontramos até uma família de ciganos que já conhecia o Brasil, pois havia se apresentado no Festival Internacional de Artes Cênicas, o Fiac, do ano passado." Lígia Veiga pertenceu ao histórico Grupo Coringa, dirigido por Graziela Rodrigues, que marcou os anos 70 no Rio. Depois do fim do grupo, veio para São Paulo, onde fundou o Tesouro da Juventude com Silvia Rosenbaum. Voltou para o Rio em 1997 e atualmente desenvolve lá o projeto do Condomínio Cultural. "Com Lia Rodrigues, Enrique Diaz, Pedro Luís e a Parede e Inês Viana decidimos fomentar a idéia de conseguir um espaço, uma vez que nenhum de nós possui sede para ensaios, um local que arrumaremos e ocuparemos por dois anos para depois começarmos a pagar o seu aluguel." O grupo tentou os armazéns do porto, mas não teve sucesso. "Parece que vamos conseguir um outro espaço no centro da cidade, mas ainda não está nada certo." Quando nascer, o novo Condomínio Cultural tem grandes chances de funcionar com uma cara ano 2000 da velha Grande Cia. de Mystérios e Novidades.

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