Imagem Laura Greenhalgh
Colunista
Laura Greenhalgh
Conteúdo Exclusivo para Assinante

'My Chinese Dream', letra e música

Na virada do ano, perdido no meio de cascatas de notícias sem importância - típico da época, às vezes penso que deveríamos humildemente oferecer férias aos leitores -, deparo com o anúncio de que um milionário chinês se preparava para viajar aos Estados Unidos, disposto a comprar o New York Times. O Ocidente trinchava perus e bebia champagne quando o homem explicou a repórteres chineses, numa festa em Shenzhen: desembarcaria com uma oferta de US$ 1 bilhão. Ok, o grupo de mídia do clã Ochs-Sulzberger, patrimônio nacional, ícone do melhor jornalismo americano, vale mais que o dobro. Mas, bolada bilionária é bolada bilionária. Quem seria o "cara"?

Laura Greenhalgh, O Estado de S.Paulo

18 Janeiro 2014 | 02h08

Chen Guangbiao, fundador da Jiangsu Huangpu, megaempresa na área de reciclagem e processamento de lixo. Então, era ele. De novo, ele! Fortuna pessoal avaliada em US$ 850 milhões, Chen é figuraça. Tem mais humor e menos canastrice do que Donald Trump - ao menos não usa perucas horrendas, nem se fossiliza em sessões de bronzeamento. Não bastasse querer ser o maior filantropo da Ásia, quer ser o maior do mundo. Quando Bill Gates e Warren Buffet lideraram campanha para que os ultrarricos doem metade de suas fortunas à caridade, Chen dobrou a aposta: deveriam doar toda a fortuna, ato contínuo à própria morte. Tempos atrás, vendeu latinhas contendo "ar puro" nas ruas de Beijing, para denunciar a degradação ambiental. Em outra oportunidade, cantou e sapateou no capô de carros japoneses, que viria doar, em protesto contra as manifestações antinipônicas na China. Quer mais? Paga o transplante de pele, em Nova York, de duas chinesas vítimas de rituais de autoimolação (fogo ateado ao corpo), que teriam a ver com a seita Falun Gong. O magnata de 45 anos não sossega.

Fiquei ligada no desembarque de Chen em Nova York, com a proposta ao Times. Imaginei-o entrando, baixinho e garboso, no belíssimo edifício do arquiteto Renzo Piano (detentor do Pritzker Prize de 1998), na Oitava Avenida. Escalando o topo do mundo em direção à sala de Arthur O. Sulzberger, Jr, Publisher, como consta da plaquinha. "Vamos conversar, Arthur", diria um Chen sorridente. Mas, não rolou.

A imprensa zarpou para o conference hall do hotel Marriott, a fim de colher detalhes do desencontro, já que a assessoria de Sulzberger divulgou que a reunião não só não aconteceu, como jamais fora agendada. O rei do desmanche precisou se reciclar em público. Posicionou-se no centro do palco, no salão do hotel, para cantar My Chinese Dream, letra e música de sua autoria. O oceano é vasto e puro, a luz do sol se espalha, abracemos a caridade, unidos no coração... Microfone em punho, como um cantor de karaokê, assim abriu a coletiva. Disse que seu contato, um acionista do Times, chateou-se quando ele, Chen, divulgou o plano de compra, ainda na China - algo que inclui investidores de Hong Kong. E daí cancelou sua aproximação com a cúpula.

Compreensível a cautela de Sulzberger, mas, confesso, senti pena do chinês, já todo emporcalhado pelo escárnio dos internautas, naquele palquinho do Marriott. Ele não desiste de comprar o grupo, ou parte dele, prometendo recuperar a imagem da marca na China. Explico: em 2012, dois websites do Times para o país, em inglês e chinês, foram bloqueados após o jornal americano, no impresso, veicular reportagem sobre poderes da família do então premiê, Wen Jiabao.

Pois Chen quer superar a crise e espalhar o Times em todas as bancas do seu país. E. enquanto não é recebido em audiência na Oitava Avenida, disputa o projeto de demolição da ponte San Francisco - Oakland Bay, na Califórnia, danificada num tremor de terra, em 1989.

A estripulia do chinês fez as ações da New York Times Company subirem e descerem aos trancos de 4%, nos primeiros dias do ano. Não faltou comentarista dizendo que Chen não passa de um embuste. De novo: entende-se que a família controladora queira preservar o business. No último ano, houve valorização das ações em bolsa, a circulação do jornal cresceu, a operação na internet se consolida, mas o mercado publicitário americano decepciona. Também se entende que haja rigor na escolha de futuros investidores ou mesmo compradores - já foi um tititi a transferência de 8,1% das ações da companhia iniciada por Adolph Ochs, em 1896, para o magnata mexicano Carlos Slim, em 2010. No mais, vida longa ao Times. E a toda imprensa comprometida com a democracia e a liberdade.

Ainda que bizarro, o Caso Chen convida a refletir sobre a presença chinesa no capitalismo do século 21. Desconhecemos essa "coisa". Se me pauto por um estudo consistente do sociólogo francês Guy Olivier Fauré - China: Novos Valores Numa Sociedade em Mutação - deparo com uma vastidão com 5 mil anos de história e cultura-matrix. Uma sociedade que durante longo tempo não se relacionou com os de fora, mas que viria a conhecer, por dentro, as piores agruras - fome, violência, repressão, controlismo, corrupção. E um povo, enfim, movido por três sistemas de pensamento - o confucionismo, o taoismo, o budismo.

O estudioso francês adverte: não se enganem, a macdonaldização da China é só uma superficialidade. Dá exemplos. A análise conjuntural, tão importante ao mundo dos negócios, no caso chinês parte do global para o específico: primeiro o país, depois a cidade, a rua, a vizinhança, a família, o indivíduo. Além disso, se o aparato analítico ocidental busca a objetividade, a neutralidade como garantia de bom diagnóstico, o modelo chinês se apoia num sistema normativo, no qual ou se é bom ou ruim. Ou se é certo ou errado. Ou se é yin ou yang. Diz-se que o empresário chinês não tem o menor receio em ceder a galinha para depois recolher os ovos, se este é o objetivo. E o que dizer da arte de negociar por metáforas, provérbios, ditados tradicionais? Pode não dar em nada a ambição de Chen, mas não deixa de ser intrigante o que ele tem dito: persistirá, "até que o publisher veja que estou agindo com sinceridade e boa fé".

*

Aqui o contexto é outro, pois envolve japoneses e americanos, mas também contorna o choque de mentalidades a partir de uma transação comercial. Segue um poema curto do uruguaio Mario Benedetti (1920-2009), chamado Rencor Mi Viejo Rencor. E peço licença para mantê-lo no original:

Cuando los japoneses

adquirieron el rockfeller center

ellos que tienen geishas y la sony

y samurais y teatro no

y kamikazes y kurosawa

y matsuo basho y panasonic

y aprenden flamenco por

computadora

y pueden cantar tangos sin

entender palabra,

cuando los japoneses adquirieron

el rockfeller center

supe que por fin havia empezado

la sutilísima, la dulce

venganza de hiroshima

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.