Mutilação, suicídio e cinismo nas tardes da Record

Como era mesmo o slogan que a Record chegou a propagar no ano passado, "A televisão que todo mundo pode ver"? Anteontem, às 5 e meia da tarde, uma ex-repórter do Cidade Alerta, num tal de Direto da Redação (novo programa), anunciou que iria exibir imagens da mutilação sofrida pela mulher esquartejada há duas semanas. "São imagens muito fortes", dizia ela, aconselhando que as crianças saíssem da sala - como se o aviso, por si só, desse aval para tamanha atrocidade naquele horário. Vieram algumas imagens e, imediatamente, ela tentou se mostrar indignada com o próprio espetáculo que apresentava: "Não, não podemos mostrar isso, é muito forte, vamos tirar do ar!" Depois retomava a cena: "Vamos congelar a imagem só na mão", destacando as pontas dos dedos sem as digitais.Na seqüência, José Luiz Datena iniciou o Cidade Alerta condenando a exibição. Disse ele que o telespectador, se quisesse, podia até mudar de canal, que ele mesmo estava "com vontade de vomitar", que não tinha cabimento exibir aquilo na TV. Pouco depois, Datena passa a comandar, durante uns 40 minutos, a transmissão de outro espetáculo do gênero: uma tentativa de suicídio. Assim como a moça do programa anterior, queria parecer cuidadoso com o público: "Não quero mostrar ninguém pulando", dizia, ao revezar cenas ao vivo com outras gravadas.A questão é: que utilidade tem esse cardápio para a platéia? Nem informação, muito menos entretenimento. É cinismo puro antecipar que as imagens são fortes ou pedir que se mude de canal.

Agencia Estado,

07 de fevereiro de 2003 | 10h38

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