Mutarelli traça a vitória de um perdedor

O caos em que está mergulhada a cidade de São Paulo serve aos propósitos de um paulistano. Nos traços sujos, sombrios e opressivos do desenhista Lourenço Mutarelli enxerga-se a cidade e suas neuroses. A situação mambembe em que vivem seus personagens é reflexo dos milhares que se acotovelam na periferia da metrópole.Toda a temática social, porém, se esconde sob um enredo policial. Seu novo livro, O Rei do Ponto (Devir Livraria, 112 pág., R$ 17,50, tel.: 3272-8200), segunda parte da trilogia em quadrinhos iniciada com o premiado O Dobro de Cinco, foi lançado no fim do ano passado trazendo novo desafio para o fracassado detetive Diomedes.Com o mote de nunca conseguir resolver um caso, o ex-policial de pouco mais de 50 anos, que vive em seu escritório, abandonado pela mulher e sempre sem dinheiro, teve pelo menos uma vitória. Nas histórias de Mutarelli, os protagonistas sempre morrem. Diomedes foi poupado."Não consegui matá-lo, ele tem vida própria. É um perdedor, mas é humano. Quando comecei a escrever O Dobro de Cinco não imaginava uma trilogia, mas Diomedes acabou ganhando espaço", conta o autor.Ironicamente, Mutarelli, de 36 anos, começou a carreira criando inocentes cenários para as animações do estúdio de Maurício de Sousa, em 1983, logo após se formar na Faculdade de Belas Artes. Em 1988, lançou seu primeiro fanzine, o Over-12."Foi a partir de 1986 que eu decidi por uma carreira-solo. Sempre gostei de histórias longas". Apesar de não usar o termo graphic novel, que considera um anglicismo desnecessário, o que o desenhista faz é romance em quadrinhos. Transubstanciação, de 91, foi sua primeira novela. Ganhou os principais prêmios do gênero como o HQMix, o Angelo Agostini e o da Bienal Internacional de Quadrinhos.A partir de então, os prêmios passaram a ser uma constante na vida de Mutarelli, muito conhecido no meio, mas só agora recebendo o reconhecimento devido do público. A falta de revistas especializadas nas quais seu trabalho pudesse aparecer é culpa disso."Os lançamentos de luxo da Devir (com venda em livrarias, e não em bancas) são importantes por isso. É o único meio que vejo de dar continuidade ao meu trabalho. A elitização é ruim, mas pelo menos eu tenho certeza que serei lido", desabafa.Ainda que o autor tenha sido influenciado por escritores como Kafka e Dostoievski - "têm um lado sombrio que me é familiar" - a trilogia com o anti-herói Diomedes pode ter nascido devido ao emprego de seu pai, um ex-policial.Final feliz? -Mas um trabalho que Mutarelli fez para a Editora Record também deve ter ajudado. Há cerca de dois anos ele ilustrou uma série chamada Coleção Negra, que incluia livros de James Ellroy (de Los Angeles, Cidade Proibida).Com essas referências, ficou fácil dar a Diomedes um cenário barra-pesada. Desta vez, o detetive tem que descobrir um assassino que envenena suas vítimas, sendo obrigado a ingerir pequenas doses de raticida para se imunizar. Mais uma vez, não consegue desvendar o crime e é levado por acontecimentos alheios a sua vontade. Luludi/AEEm O Rei do Ponto o poeta Glauco Mattoso foi quadrinizado por MarcattiEntre os personagens, há personificações de gente famosa como Bob Dylan, o roqueiro John Cale, além de homenagens a amigos do autor, em forma de personagens. Há até uma participação especial: a do poeta Glauco Mattoso, com o qual Mutarelli e o cartunista Marcatti criaram a revista Tralha nos anos 80.Mattoso aparece na história como um oráculo de Diomedes. Usando uma camiseta com o pôster do filme Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick, ele explica para o aparvalhado detetive, e também para o leitor, quem era o rei do ponto, que dá título ao livro.Os detalhes dos cenários de Mutarelli também chamam atenção: carros antigos, bares e locais da cidade retratados fielmente. Quando anda pela cidade, o autor costuma parar e copiar as "locações" que considera importantes para o enredo.O roteiro, tão desprezado por muita gente, tem importância crucial na obra do desenhista. Mesmo com o prêmio HQMix de melhor álbum e melhor desenhista de 99 por O Dobro de Cinco, Mutarelli prefere que valorizem o enredo e não seus traços. "Meu desenho não é muito bonito, é muito sujo".Terror de nove em cada dez desenhistas, o roteiro não é problema para Mutarelli. Além de dominar o traço, também sabe o caminho da narrativa e costuma apresentar workshops sobre o tema. O próximo será no dia 27, na Fnac Pinheiros (Av. Pedroso de Morais, 858, tel.: 3097-0022).O roteiro do capítulo final da trilogiaA Soma de Tudo, já está pronto. Nele, Diomedes vai parar em Portugal, onde irá, pela primeira vez, desvendar o mistério, mesmo assim, a um preço. "Ele não poderá revelar para ninguém. Será um teste, no qual ele terá de descobrir se as vitórias anônimas, particulares, têm valor". Talvez esteja reservado ao detetive Diomedes um final feliz.

Agencia Estado,

06 de janeiro de 2001 | 17h18

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