Mutarelli e Saied juntos em três projetos teatrais

Há dois anos, Nestor Saied - ator argentino radicado na Itália - chamou atenção no Festival de Teatro de Curitiba por sua ótima atuação em Agulhas e Ópio, monólogo escrito e dirigido pelo cineasta e diretor canadense Robert Lepage. Na ocasião, conheceu, num almoço, a atriz Cristina Mutarelli que participava do evento com o espetáculo Arte Oculta. "Foi um encontro casual", afirma Saied em entrevista ao Estadao.com.br, esta semana, na casa da atriz - sua mais nova parceira em três projetos teatrais. "Não foi nada casual; eu adorei o monólogo e pedi a Lúcia (Camargo, secretária da Cultura do Paraná) que nos colocasse na mesma mesa", confessa Cristina.No ano passado, Saied voltou ao País a convite do Sesc com outro monólogo - Uno, Nessuno e Centemilla -, adaptação de uma novela de Luigi Pirandello. Dessa vez, assistiu ao monólogo O Pai, texto de Cristina interpretado por Bete Coelho e dirigido por Paulo Autran. Foi o ponto de partida para uma ambiciosa parceria artística. Os dois primeiros projetos de intercâmbio estão garantidos.Olhar feminino - Uma montagem italiana de O Pai vai estrear no dia 8 de setembro, em Roma, interpretado por Tiziana Bergamaschi, sob direção de Orietta Borgia. E em março, Cristina promove no Teatro N.Ex.T um ciclo de leituras dramáticas com peças de oito autoras italianas, selecionados entre as participantes do festival de teatro italiano feminino Cena Sensible, dirigido por Serena Grandicelli.É só o começo. Saied e Cristina querem atuar juntos na peça A Música do Fundo do Mar, texto da italiana Mariana Confaloni, também diretora do espetáculo, que deve contar ainda com a participação especial de Paulo Autran e estrear em março no Festival de Curitiba. Também deve integrar a programação do festival o mais recente trabalho de Saied escrito e dirigido por Lepage - Polygrafe, cuja temporada italiana termina no fim de janeiro.Saied já reservou em sua agenda quatro meses - de fevereiro a maio - para ficar no Brasil. "Ainda estamos negociando com patrocinadores, mas o desejo é estrear os dois espetáculos no Festival de Curitiba e depois viajar pelo Brasil", afirma a atriz.A Música do Fundo do Mar, tradução literal do título italiano, tem como principais personagens um casal de surdos-mudos que se conhece na sala de espera de uma empresa. Candidatos à mesma vaga por um emprego, acabam vítimas da distração do entrevistador, que os tranca no prédio em plena sexta-feira, obrigando-os a uma convivência forçada por todo um fim de semana.O clima de competição dá lugar a uma série de sentimentos contraditórios durante o longo período de convivência. "A peça tem cenas engraçadas, agressivas, ternas, cotidianas e sensuais", diz Cristina. Eles são obrigados a dividir o espaço para dormir e, ambos carentes, acabam atraídos um pelo outro. "Embora o texto não revele, a personagem parece nunca ter namorado na vida e não sabe como lidar com sua sensualidade", comenta Cristina."Depois de trabalhar com Lepage, fica muito mais difícil encontrar um texto desafiador", afirma Saied. "Um personagem sem falas e tomado por emoções contraditórias como esse, além de ser universal, obriga o ator a um esforço de interpretação muito grande", completa. "Na montagem italiana, o dono da empresa é interpretado por um grande ator e, no Brasil gostaria que fosse o Paulo Autran", diz Cristina. "Ainda não o convidei, mas ele vai aceitar", acredita.Thriller - Polygrafe, o mais recente espetáculo do diretor e autor canadense, foi criado a partir de uma experiência pessoal. "Uma atriz foi assassinada no Canadá e Lepage, assim como outros artistas, foi indiciado no processo", conta Saied. No Brasil, onde o espetáculo deve receber o título de A Máquina da Verdade, será apresentada a montagem espanhola. Saied é o único ator a integrar o elenco das duas encenações do texto: na Itália e na Espanha.A peça tem três personagens: uma jovem atriz, um diretor de teatro e um camareiro, todos suspeitos de um crime. Assim como ocorreu com Lepage, eles são submetidos ao teste do detector de mentiras durante um interrogatório. O mais comum, nesses casos, é a exploração da desconfiança mútua, mas Lepage foge do óbvio. "Cada um dos personagens começa a duvidar de si mesmo", diz Saied. "A peça tem a estrutura de um thriller metafísico."

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