Músicos independentes lutam para gravar CDs

Nunca foi fácil para os novos artistas lançarem o primeiro álbum. Enquanto as grandes gravadoras que os desprezam se afogam no pântano que elas próprias poluíram, cada um se vira como pode para mostrar seu valor. A cantora Fabiana Cozza, que estréia temporada hoje no Teatro Crowne Plaza, o percussionista Siri e os grupos Cérebro Eletrônico e Bangalafumenga estão entre as revelações deste ano que chegaram à luz por mérito próprio. Embora os desavisados continuem passando a idéia de que a música brasileira anda em crise, a significativa quantidade de discos bons lançados este ano, como os dos acima citados, prova o contrário. Há um movimento espontâneo em curso, uma união pelas colaborações mútuas, facilitadas pelos recursos da era eletrônica. O princípio de coletividade e a atitude de antiastros regem a realização de todos esses exemplares. "Muita gente descobriu que existe vida fora dos grandes esquemas?, aponta Rodrigo Maranhão, vocalista do Bangalafumenga. "Hoje é mais fácil gravar um CD e temos muito incentivo de gente bacana." O Banga (como já foi apelidado) surgiu em 1999 como bloco de carnaval, tocou em muitas festas pelo circuito universitário, foi revelado no projeto Humaitá Pra Peixe, mas só este ano conseguiu entrar em estúdio para gravar Vira-Lata, com produção de Chico Neves. Maracatu, samba, funk e rock estão na mistura. Para realizar o excelente O Samba É Meu Dom, a ex-jornalista Fabiana Cozza recorreu aos amigos. Nenhum músico cobrou para tocar no disco, outro fez desconto no aluguel do estúdio, o preço da mixagem foi camaradíssimo. Tudo saiu por R$ 17 mil. "Pela qualidade do trabalho, ficou barato", avalia a cantora. Já Siri depositou quase tudo o que ganhou como instrumentista nos últimos três anos para produzir o CD homônimo, que custou R$ 30 mil. "Como sou músico, sei que qualquer quantia que receba por um trabalho faz a diferença. Por isso paguei todo mundo que tocou comigo." No balanço geral, Fabiana atribui o sucesso obtido à sorte, em boa parte. O restante foi suor. "Não tenho tempo a perder para reclamar das dificuldades. Jamais chegaria a mendigar numa gravadora para o dono rico me dizer que eu tenho talento." E como tem. A voz de Fabiana é das mais bonitas, calorosas e envolventes. Vem de uma escola de grandes intérpretes que tem por referência, tanto na expressão como no repertório criterioso: Elizeth Cardoso, Elis Regina, Clara Nunes, Leny Andrade, Marília Medalha.Prata da Casa - Criado pelo núcleo de música do Sesc Pompéia há cerca de quatro anos, o projeto Prata da Casa é uma das plataformas mais importantes e cobiçadas por artistas que estão lançando o primeiro CD. A partir de quinta-feira e até o dia 22, o Sesc realiza a segunda bienal do projeto com os 18 trabalhos mais expressivos apresentados nos últimos dois anos. Todos os shows têm entrada franca. O primeiro a se apresentar é o cantor e compositor paulistano Rômulo Fróes, que lançou um dos discos mais bonitos deste ano - Calado. Fróes divide a noite de quinta com o grupo de percussão corporal Barbatuques. A mineira Alda Rezende e o paulista Chico Pinheiro são as atrações de sexta. A noite de sábado é das bandas nordestinas Monjolo (PE) e Soulzé (CE). O domingo instrumental reúne o carioca Quarteto Maogani, o saxofonista mineiro Cléber Alves e o paulistano Umdoistrio. Nestes quatro anos, o Prata abriu espaço para figuras de talento e de estilos diversos que deslancharam na carreira, como Vanessa da Mata, Chico Saraiva, Ceumar, Marcelinho da Lua, Quinteto em Branco e Preto.Fabiana Cozza - Teatro Crowne Plaza, Rua Frei Caneca, 1.360, 289-0985. Segunda, às 21 horas. R$ 20. Começa hoje e vai até 23/8 2.ª Bienal do Projeto Prata da Casa - Com Rômulo Fróes, Barbatuqes, Alda Rezende, Chico Pinheiro e outros. Teatro Sesc Pompéia, Rua Clélia, 93, 3871-7700. Quinta, sexta e sábado, às 21 horas; domingo, 18 horas. Grátis. De quinta até 22/8

Agencia Estado,

09 de agosto de 2004 | 19h47

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