Músico merece esta biografia afetuosa e esclarecedora

A Algol continua nos surpreendendo com seus lançamentos, todos de grande interesse para o amante da música em geral e para profissionais. Depois de enfrentar biografias de vários ícones da música universal, ela agora se concentra na narração da curiosa, provocante e emocionante trajetória de um músico brasileiro de prestígio internacional, o violoncelista Antonio Meneses.

Júlio Medaglia ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

27 de outubro de 2010 | 00h00

O livro apresenta dois aspectos curiosos. De um lado narra os acontecimentos de uma vida cheia de percalços de um jovem que foi buscar no talento excepcional o componente libertador, as armas para edificar uma brilhante carreira, bem diferente daquela que, aparentemente, o menino tímido teria pela frente. Por outro, as indicações de natureza técnica e artística, frutos de sua experiência pessoal, conferem à essa Arquitetura da Emoção um interesse ainda maior para os que se aprofundam no gosto ou no profissionalismo musical.

Numa linguagem quase afetuosa, os autores João Luiz Sampaio e Luciana Medeiros narram a vida de um menino pernambucano que chega ao Rio, trazido por um pai músico e autoritário, que praticamente o obriga, aos 10 anos de idade e independente de sua vontade, a estudar um instrumento musical. Em pouco tempo, porém, o feitiço sonoro o encanta e Meneses resolve enfrentar a tarefa de seguir pelo caminho da música. Estuda com bons professores, frequenta várias orquestras jovens do Rio, conseguindo, já aos 14 anos, passar num concurso para ocupar vaga na Sinfônica Brasileira.

No início dos anos 70 a OSB recebia muitos bons músicos do exterior e a passagem por aqui de Antonio Janigro, um dos maiores celistas de todos tempos, opera uma transformação radical no destino do jovem músico. Janigro encanta-se com Meneses e o convida para ser seu aluno na Alemanha. Aos 16 anos, sem bolsa, com pouquíssimo dinheiro, sem roupas adequadas para o clima e sem falar alemão, ele parte para Düsseldorf e presta concurso na Escola Superior de Música. É aceito e torna-se aluno do grande celista italiano. Depois de algum tempo Janigro se transfere para Stuttgart e Meneses o acompanha, ainda sem condições dignas de sobrevivência. Nessa cidade faz "bicos" para sustentar suas necessidades mínimas e começa a frequentar concursos em vários países. O primeiro grande acontecimento em sua vida deu-se quando ele vence o concurso da Rádio de Munique, derrotando 40 candidatos, onde se apresentou com um instrumento excepcional, emprestado pelo mestre Janigro. Seu talento torna-se conhecido e ele começa a atuar como solista, inclusive no Brasil. Entrando na vida profissional, chegou o momento de adquirir um bom violoncelo. Isso se deu no ano de 1978 quando obteve recursos para comprar um Guarnerius por aproximadamente R$ 1.000.000 de hoje.

Primeiro. O grande salto qualitativo de sua vida e carreira, porém, deu-se quando ele resolve participar do Concurso Tchaikovsky de 1982 em Moscou, concurso esse que ocorre a cada 4 anos. Concorrendo com 69 violoncelistas do mundo, Meneses obteve o primeiro lugar. Daí para frente sua carreira se consagrou internacionalmente, apresentando-se em todos os continentes com os maiores maestros e orquestras. Isso lhe valeu também um convite de Herbert Von Karajan, maior mito da regência sinfônica da segunda metade do século 20, para gravar, com Anne-Sophie Mutter e a Filarmônica de Berlim, o Concerto Duplo, de Brahms.

Apesar de todo o prestígio e brilhante carreira, Meneses ainda assimilou novas experiências ao ser convidado para participar do Trio Beaux-Arts, o mais famoso do mundo. Seu contato com Menahen Pressler, o pianista do trio, foi enriquecedor trazendo-lhe filigranas interpretativas que só se obtém fazendo muita música de câmara.

Engenharia. Na segunda parte desse livro, Meneses é entrevistado e em seus depoimentos fornece informações importantes sobre sua relação com o instrumento, os mecanismos da composição e execução musicais, sua carreira, a música erudita em geral, os grandes compositores, salientando os que prefere, intérpretes que admira e os com os quais tocou etc. Aqui, um verdadeiro tratado de compreensão e amor à música. Tão conscientes, práticos e esclarecedores são os dados expostos sobre o fazer e a degustação musical que, independentemente do prazer da leitura, poderia-se acrescentar mais uma palavra ao título: Arquitetura e engenharia da emoção.

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