Nilton Fukuda/AE
Nilton Fukuda/AE

Músico do século 21

Mistura de Dimos Goudaroulis inclui jazz experimental, autores barrocos e música popular

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

06 de agosto de 2011 | 00h00

Músicos de todos os gêneros e latitudes dificilmente se dão conta disso, mas é duplo o desafio que enfrentam - ou teriam de enfrentar, para exercer sua profissão em toda a sua potencialidade - neste início de século 21: combinar as benesses da superespecialização com uma cultura humanista sem fronteiras, globalizada. Em geral, os músicos ainda focam em repertórios específicos, até em determinado compositor, e nele permanecem por décadas. Conseguem até ótimos resultados em concertos e em gravações; mas desligam-se totalmente do mundo que os rodeia. Do outro lado da balança, os que optam por polinizar todos os gêneros chafurdam numa superficialidade de dar dó.

São raros, raríssimos, os que conseguem combinar seriedade e profundidade com alta performance em domínios tão diversos como a música contemporânea erudita, o jazz experimental e a prática da música antiga historicamente informada - sem esquecer a música popular brasileira. De certo modo, o grande desafio dos músicos de nosso tempo é renegar a zona de conforto da divisão de trabalho. O talento natural e a superlativa capacidade de trabalho e disciplina são decisivos. Mas a pedra de toque é uma cabeça aberta.

O violoncelista grego Dimos Goudaroulis, 40 anos, vem mostrando, em seus quinze anos de Brasil, que supera este desafio na prática. Enfrenta - como escreve Theodor Adorno em Mínima Moralia, um dos livros que ele relê na edição grega nestas semanas - o preconceito que sofre quem se insurge contra a padronização: "A ocupação com coisas espirituais tornou-se (...) um negócio marcado pela rígida divisão do trabalho". Quem não liga para isso, adverte Adorno, tem de "sobrepujar o mais turrão dos especialistas". A lista de CDs que ouve e suas leituras atuais dão uma ideia da cabeça humanista de Dimos - além de Adorno, textos de São João Crisóstomo, teólogo e escritor grego do século V, e Os Irmãos Karamazov, de Dostoievski, ao som de Anner Bylsma, Mark Feldman e Ligeti.

Neste fim-de-semana, por exemplo, Dimos vive seu momento de músico historicamente informado. Lança, em quatro apresentações não-ortodoxas , sua inovadora leitura das seis suítes solo de Bach, o Himalaia de todo violoncelista moderno: em duas lojas de discos, num novo espaço plurimusical independente e numa livraria. "O que seria o fecho do projeto suítes está se transformando no início de um projeto multiartístico, incluindo grandes coreógrafos, em torno das suítes de Bach", conta ao Estado.

O rico balanço de suas atividades de especialista em música antiga inclui o celebrado duo com o cravista brasileiro Nicolau de Figueiredo (eles lançaram ano passado, pelo selo SESC, o precioso álbum duplo O Tenor Perdido). A dupla promete gravar uma especialíssima versão da segunda sonata para violoncelo e piano de Beethoven: "O manuscrito dele indica que a parte de teclado pode ser tocada com "clavicembalo" ou "fortepiano". Provavelmente será a primeira versão desta sonata para cello barroco com cordas de tripas acompanhado por cravo", brinca. Ainda com Nicolau, Dimos inicia em outubro de 2013, em Londres, sua primeira turnê européia de concertos em trio com a violinista Viktoria Mullova. Será ainda solista de concertos de Carl Philipp Emanuel Bach e Luigi Boccherini com as orquestras sinfônicas de Tessalônica e Atenas, na sua Grécia natal.

O lado popular, jazzístico, o trouxe ao Brasil em 1995, convidado para shows e masterclasses no Cello Encounter, no Rio, e levou-o a fixar-se no ano seguinte no País. Hoje, mesmo morando na Vila Madalena e sem agente internacional ("Sou secretário de mim mesmo"), Dimos desenvolve carreira internacional intensa. Nos últimos quatro anos fez ao menos 40 apresentações por temporada entre Europa e Estados Unidos com o Carioca Trio. Desde 2007, mantém um duo que classifica de "improviso puro, livre, sem se vincular a nenhuma linguagem musical", com o percussionista Edu Contrera.

Nichos. A música contemporânea, entretanto, é mais que um gosto. Goudaroulis, integrante da Camerata Aberta, único grupo permanente dedicado à prática da música contemporânea no país, diz que permanece no grupo por ideologia: "Sinto-me obrigado a defender a música do nosso tempo; é mais uma obrigação ética do que escolha profissional".

Como manter a qualidade em práticas musicais tão diversas? "Tento equilibrar as coisas, e não misturá-las de modo pós-moderno irresponsável. Cada nicho desses é encarado com total respeito, seriedade. Busco recriar hoje a cabeça do homem renascentista, que conseguia fazer várias coisas ao mesmo tempo e possuía uma vasta cultura geral." Em suma, manter a cabeça aberta evita o que o violoncelista chama de "males da especialização": "Você só faz bem uma coisa, e não sabe nada do mundo, forma sua tribo. Os historicamente informados, por exemplo, são ferozes e excludentes, só o trabalho deles é que é válido. Tô fora disso. Não nego o lado bom deles, que de fato jogaram novas luzes sobre a música antiga e provocaram o florescimento de novas práticas musicais. Mas não faço parte de tribos nem excluo ninguém de nada".

Isso se chama inclusão musical responsável. Fazer música em nível superior em tantas linguagens diferentes é para pouquíssimos. A violinista Viktoria Mullova adorou seu show de música improvisada na noite londrina; em seguida, encantou-se ao ouvir sua leitura das três primeiras suítes de Bach e o chamou para o trio. The Peasant Girl, seu álbum duplo que será lançado nesta segunda-feira no mercado internacional pelo selo Onyx (já pode ser baixado no site da gravadora) possui uma imensa afinidade com a "cabeça aberta" de Dimos: mistura temas jazzísticos (Django, de John Lewis, e dois temas de Joe Zawinul, do Weather Report), com duos para violinos e violino/cello de Bartók e Kodaly. Seu marido, o violoncelista Matthew Barley, assina os arranjos e toca com ela o grande duo de Kodaly. Uma formidável gravação, que inclui ainda o pianista de jazz Julian Joseph e a fina percussão de Paul Clarvis e Sam Walton. O álbum apresenta basicamente o repertório do show que Mullova fará no próximo dia 18 no conhecido festival de verão Proms londrino.

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