Musical traz Lupicínio em verso e prosa

Vingança antecipa comemorações do centenário do compositor Lupicínio Rodrigues e resgata suas canções

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES, O Estado de S.Paulo

04 de maio de 2013 | 02h10

De passagem por Porto Alegre, nos anos 1970, Caetano Veloso foi encontrar Lupicínio Rodrigues. Juntos, fizeram aquilo que o veterano compositor mais gostava, beber cerveja e cantar canções de "dor de cotovelo."A cada gole, Lupicínio levantava da cadeira e entoava histórias de traição, desenganos e amores impossíveis. Sentada a seu lado, sua mulher retorquia: tudo mentira. Talvez, àquela altura da vida, as amarguras do músico soassem mesmo pouco críveis. Mas foi, de fato, inspirado nas desventuras que viveu e observou ao longo da vida de boemia, que ele escreveu suas obras e se tornou um mestre do samba-canção.

Em cartaz no CCBB, o musical Vingança vai beber diretamente na música de Lupicínio para contar as agruras de três triângulos amorosos. Uma história de melodrama, de muitos desencontros conjugais, como aqueles que acompanhamos em obras como Cadeira Vazia, Caixa de Ódio, Nervos de Aço e Se Acaso Você Chegasse. "As canções dele são muito visuais, a gente enxerga em cada canção uma história. Daí, a ideia de escrever uma peça dramatizando o que ele cantou", conta Anna Toledo, idealizadora, dramaturga e atriz do espetáculo.

A trama passional urdida por Anna chega em hora oportuna, às vésperas do centenário do artista, que nasceu em 1914 e conseguiu alcançar o mundo, sem nunca ter vivido além dos limites do Rio Grande do Sul. Só passou no Rio de Janeiro uma curta temporada em 1939. Tempo em que frequentou o Café Nice, conheceu os grande cantores do rádio como Orlando Silva, que gravou o samba Brasa, e Francisco Alves, que emprestou a voz a Nervos de Aço e Esses Moços.

Os anos 1950 estão impregnados ao clima das canções e também à atmosfera que o diretor André Dias recria no palco. É no interior de um cabaré do Sul do País, que a dançarina Maria Rosa (Ana Carolina Machado) conhece Liduíno (Jonathas Joba), boêmio inveterado casado com Luzita (Anna Toledo). Ela é uma dona de casa que vive enclausurada, mas é alvo da devoção de Orlando (Sergio Rufino), o dono do cabaré. A unir as duas pontas está Linda (Andrea Marquee), doméstica na casa de Luzita de dia, cantora do bar à noite, e apaixonada pelo bicheiro Jesuíno (Luciano Andrey) "A intenção era construir uma história em que as canções surgissem naturalmente. Em que os atores cantam como se dissessem as falas dos seus personagens", observa a dramaturga, que é também cantora.

Ainda que não tenha cunho biográfico, o espetáculo lança mão não apenas das canções de Lupicínio, mas das crônicas que ele escreveu para o jornal Última Hora e das declarações que deu em entrevistas.

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