Musical recupera humor de Stanislaw Ponte Preta

Stanislaw Ponte Preta, um dos personagens mais populares dos anos 60, criado pelo cronista e jornalista Sérgio Porto, está de volta ao Rio. Não nas páginas de jornais, mas no palco do Centro Cultural Banco do Brasil, no musical Tia Zulmira e Nós, que estréia nesta quinta-feira, às 19h30. O texto é do jornalista João Máximo, que chamou Cristóvão Bastos e Aldir Blanc para compor as músicas e entregou a direção a Aderbal Freire Filho. Cláudio Lins vive Stanislaw, enquanto Suely Franco faz a personagem-título, a macróbia da Boca do Mato mulher sábia e experiente.Só quem tem mais de 40 anos se lembra de Stanislaw Ponte Preta, crítico feroz das mazelas brasileiras, que nunca perdeu o humor. Ele surgiu em meados dos anos 50, nas páginas do jornal Última Hora, e personificava o carioca típico da zona sul, intelectual, boêmio e amante da vida e das mulheres. Ao longo dos anos, sua família foi crescendo, com a criação de Tia Zulmira, mulher com muitas décadas de idade, ex-amante de Karl Marx e confidente da princesa Isabel, e uma vasta galeria de primos, em que se destacavam o mau caráter Altamirando, o patriota Bonifácio e o ingênuo e distraído Rosamundo.De todos eles, só Rosamundo ficou de fora do musical. "Decidi mandá-lo para Brasília, como deputado, porque não consegui encaixá-lo na história que estava contando", justifica Máximo. Na verdade, as histórias são duas. Numa, Tia Zulmira conversa com os sobrinhos e fala das mazelas do Brasil, das antigas e das atuais. "Procurei seguir a linguagem de Stanislaw mostrar a personalidade de cada um dos personagens, mas a o texto é de hoje, não está em nenhum dos livros dele. Já a história que Tia Zulmira conta para os sobrinho, como exemplo dos problemas do Brasil, é o conto A Grã-fina de Copacabana, do livro As Cariocas, que vem assinado por Sérgio Porto."Essa confusão nunca existiu para quem devorava as crônicas e livros de Sérgio Porto e Stanislaw Ponte Preta. O primeiro tinha existência real, era carioca, jornalista, roteirista de rádio e autor de contos e novelas. O segundo apareceu para criticar com ironia a sociedade e a política brasileira e criou expressões em voga até hoje. A televisão era a máquina de fazer doido. Os vexames dos políticos e burocratas eram compilados no Festival de Besteiras que Assola o País (Febeapá). Os enredos ufanistas das escolas de samba foram parodiados no "Samba do Crioulo Doido", até hoje um hit. E, a par das listas de dez mais elegantes dos colunistas sociais, ele elegia as mais bem despidas, que depois viraram as Certinhas do Lalau, honra que toda atriz ou vedete disputava."É um dos poucos casos em que o escritor não foi tragado pelo pseudônimo e os dois coexistiram pacificamente", comentou Jorge Amado, no prefácio que fez para o livro As Cariocas. Sérgio Porto morreu de enfarte, aos 43 anos, em 1968 e deixou pouco mais que uma dezena de livros. Já Stanislaw durou mais e João Máximo sempre quis levá-lo para o teatro. Só conseguiu se organizar no ano passado, quando ganhou uma bolsa da Rioarte e financiamento do CCBB para produzir a peça. "Aproveitei para fazer um musical brasileiro, porque sempre fui fã desse gênero e achava que era preciso criar uma linguagem nossa, sem copiar a Broadway."A peça começou a se concretizar em outubro, quando Cristóvão Bastos e Aldir Blanc entraram no projeto para fazer a música. Eles são autores de pelo menos dois hits recentes em novelas, Suave Veneno e Resposta ao Tempo (ambas cantadas por Nana Caymmi), mas Bastos estréia em teatro, embora já tenha feito trilhas sonoras para filmes (Mauá, o Imperador e o Rei, por exemplo). Está encantado. "Pela primeira vez componho assim, vendo o espetáculo surgir ", diz ele. São 14 músicas inéditas, do maxixe ao samba de breque, sem esquecer de um tango que fecha o espetáculo. "O interessante é que o diretor armou a cena de tal modo que os músicos fazem parte da cena, não estão ali só para acompanhar os cantores/atores."Líderes - Suely Franco trabalhou com Sérgio Porto, no show A Máquina de Fazer Doido, e conta que ele era alegre, como o Stanislaw Ponte Preta. "Naquela época, a gente fazia tudo junto, cinema, teatro, televisão ao vivo e shows. A Tia Zulmira é um personagem interessante por ser atemporal, chique, conviveu com os grandes líderes mundiais e passa essa experiência para os sobrinhos", diz a atriz, cujo último musical foi Somos Irmãs, onde ela vivia Linda Batista, já decadente. O espetáculo, um drama, lhe valeu o Prêmio Shell, mas ela não acredita que a façanha se repita. "Os críticos não gostam muito de comédias, como o público. Eu gosto de tudo, bom para mim é representar."João Máximo, que trabalhou com Sérgio Porto na Inglaterra, durante a Copa do Mundo de 1966, acha que ele não tem substituto no jornalismo atual, embora ressalte que essa atividade, como o mundo, mudou. Como releu a obra do amigo para a escrever a peça, gostaria de dar início a um revival. A Editora Record detém os direitos dos livros e pretende relançá-los ainda este ano. "Ele escreveu um pouco sobre tudo, do futebol à música", adianta Máximo. "Não era um estilista, mas tinha muita cultura e era absolutamente iconoclasta. Ainda bem que o material que ele deixou está acessível e não perdeu a atualidade."

Agencia Estado,

17 de janeiro de 2001 | 17h37

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