Leo Aversa/Divulgação
Leo Aversa/Divulgação

Musical recupera a alma do antigo carnaval carioca

Sambas antológicos lançados de 1920 a 1970 estão em 'É Com Esse Que Eu Vou', na trilha de 'Sassaricando'

Roberta Pennafort, O Estado de S. Paulo

19 de agosto de 2010 | 06h00

Há quatro carnavais, estreava no Rio Sassaricando, um musical que embalava a plateia num passeio pelo século passado através de marchinhas. O sucesso do primeiro - já foram 170 mil espectadores, em mais de 200 apresentações em teatros de todo o País, e ainda está programada uma volta no próximo verão - chancela É Com Esse Que Eu Vou, o segundo espetáculo assinado por Rosa Maria Araujo e Sérgio Cabral, que estreia amanhã, às 21 h, no Oi Casa Grande (Avenida Afrânio de Mello Franco, 290).

 

Saem as marchas e entram os sambas que também animaram carnavais dos anos 20 aos 70, nas ruas e nos salões da cidade. Ficaram os diretores, Claudio Botelho e Charles Möeller - responsáveis pelos melhores musicais da última década -, os músicos e quatro cantores-atores: Soraya Ravenle, Alfredo Del-Penho, Pedro Paulo Malta e Beatriz Faria. Os cantores Marcos Sacramento e Makley Matos, estreantes no teatro, e Lilian Valeska são os mais novos foliões.

 

Se em Sassaricando só os espectadores mais velhos cantavam as letras de primeira, agora o público do gargarejo à última fila reconhecerá, já nas notas iniciais, sambas como Com Que Roupa?, de Noel Rosa, de 1931, Ai Que Saudades da Amélia, de Ataulfo Alves e Mário Lago, de 42, e A Voz do Morro, de Zé Keti, 56.

 

"Os sambas de carnaval tornaram-se clássicos; as marchinhas, não. Muitas delas eram circunstanciais, tratavam dos personagens e questões da cidade, a luz, o transporte. Os sambas falam mais de amor, do homem, da mulher", justifica Rosa Maria, historiadora que preside o Museu da Imagem e do Som. "Em 1932, a prefeitura instituiu concursos para a escolha das melhores músicas de carnaval, tanto marchinhas quanto sambas. Nas ruas e nos bailes de hotéis e clubes do Brasil inteiro, todo mundo cantava", diz Cabral.

 

Durante 14 meses, amparada pela incrível discoteca do obstinado pesquisador Cabral (originalmente em 78 rotações, mas já transformada em CD), a dupla se reuniu uma vez por semana, para selecionar, entre 1.300 candidatas, as músicas que se encaixavam nos temas dessa biografia encenada do samba carioca: entre eles, as oposições entre ricos e pobres (como Se Eu Tivesse Um Milhão, de Roberto Martins e Roberto Roberti, que abre o espetáculo), orgia e trabalho (caso de Falta Um Zero no Meu Ordenado, de Ary Barroso e Benedito Lacerda) e briga e paz (Mora na filosofia, de Monsueto e Milton de Oliveira.

 

O pobre do Zé Marmita, que anda pendurado na porta do trem, o rapaz que precisa do bonde tanto para trabalhar quanto para se encontrar com sua amada, a mulher do malandro, para quem "pancada de amor não doi", a lavadeira, de lata d’água na cabeça, o mendigo e o doutor são alguns dos tipos que evoluem no palco, seja pela Lapa, os elegantes cassinos ou o tal do bonde.

 

Dramaticidade. A louvação ao samba é representada por números como Leva Meu Samba, de Ataulfo Alves. Para Botelho, mineiro que chegou ao Rio em 1978, estar entre "gente do samba" facilitou seu trabalho. "Todo mundo aqui é sambista", carimba o diretor, que optou por uma dramaturgia mais elaborada desta vez. "O carnaval das marchinhas é mais fácil, porque você pode arriscar no oba-oba, colocar todo mundo com a mãozinha pra cima. Agora tem mais dramaticidade." Ele sabe que a menção a Botelho/Möeller no letreiro eleva as expectativas do público, por isso nunca saiu satisfeito dos ensaios.

 

Com 20 musicais no currículo, Soraya também tenta se superar: "Agora, não dá pra cortina abrir e você cantar mais ou menos..." Sem nunca ter trabalhado como ator, Makley, capixaba há quatro anos radicado no Carioca da Gema, na Lapa, hesitou quando chamado ao teste. "Respondi que não tinha preparo. Vi Sassaricando várias vezes, fiquei com medo de não conseguir cumprir", contou o cantor de belo timbre, no intervalo do ensaio de segunda-feira. Aos 50 anos, cantor experiente, Sacramento foi outro que teve de deixar a zona de conforto. "Tudo é novidade!" Quando ele está no palco, ninguém diz.

 

Pérolas da peça:

Zé Marmita - Brasinha-Luís Antônio - 1953

Sapato de Pobre - Luís Antônio-Jota Júnior - 1951

O Bonde de São Januário -  W. Batista-Ataulfo Alves - 1941

Isaura - R. Roberti-Herivelto M. - 1945

Bom dia, Avenida - Herivelto-Grande Otelo - 1944

Não Tenho Lágrimas - Bulhões-Milton Oliveira - 1937

Atire a Primeira Pedra - Ataulfo Alves-Mário Lago - 1944

Eu Agora Sou Feliz - Jamelão-Mestre Gato - 1963

Nega Maluca - E. Ruy-Fernando Lobo - 1950

A Mulher Que É Mulher - K.Caldas-A.Cavalcanti - 1954

O Bigode do Rapaz - R. Martins-A.Garcez - 1943

Um Samba em Piedade - Ary Barroso - 1932

Madureira Chorou - Carvalhinho-J. Monteiro - 1957

Alegria - Assis Valente-D. Maia - 1937

É com Esse Que Eu Vou - Pedro Caetano -1947

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