Musical recria a saga de Luís Gonzaga

A Bahia traz hoje uma boa surpresa para os paulistanos. O Vôo da Asa Branca, peça musical que estréia no Teatro João Caetano, narra a vida do rei do baião Luís Gonzaga. Essa montagem é um bom exemplo de como trabalhar a cultura popular sem ser provinciano ou paternalista. Estruturada em linguagem de cordel, é um espetáculo simples e divertido, que parte da trajetória desse músico para traçar uma identidade nordestina marcada pela seca e pela desigualdade social. Gonzagão nasceu em Exu, pequena cidade do interior de Pernambuco. Conheceu ainda menino a cruel realidade do sertão: com 7 anos já pegava na enxada para ajudar a família. Enfrentou em sua juventude a seca e a pobreza, as quais retratou como ninguém em suas músicas: "Qui braseiro, qui fornalha/ Nem um pé de prantação/ Pru farta d´água perdi meu gado/ Morreu de sede meu alazão."O gosto pela sanfona foi herdado de seu pai, Januário. Sanfoneiro respeitado, Januário ensinou cedo os segredos do instrumento ao filho, que logo passou a acompanhá-lo nos forrós da região. Após um conflito com sua mãe, já totalmente apaixonado pela música, acabou por ingressar no Exército, para tentar a sorte na cidade grande. Quando recebeu dispensa do serviço militar, passou a tocar sua sanfona no Rio, onde conheceu toda espécie de preconceitos até chegar à consagração.Esse trajeto é contado com graça pelo Grupo Asa Branca. Mesclando a linguagem do cordel com músicas de Gonzaga, o grupo consegue realizar uma narrativa compacta, que encanta pela simplicidade.O cenário, composto por cercas com varas, não é fixo, mudando de composição constantemente. As cercas passam a ser de metal quando a ação se desloca para o Rio. Em conjunto com os figurinos, de cores fortes inspiradas nas cerâmicas de mestre Vitalino, recria-se com criatividade o ambiente do nordeste rural. Os atores cantam, dançam e interagem com o cenário de modo dinâmico, fruto de um competente trabalho de conjunto. É a primeira vez que o grupo vem a São Paulo. O autor e diretor do espetáculo, Deolindo Checcucci, trabalha há 30 anos com teatro na Bahia, onde desenvolveu uma respeitável carreira. Checcucci passou sua infância em Jequié, e lá viu algumas vezes Luís Gonzaga tocar nas praças. Ele explica que Gonzaga não é somente um grande músico, mas referência de toda uma cultura. "A peça é uma homenagem a esse homem que conseguiu, com seu trabalho, afirmar nacionalmente a identidade nordestina e representa tantos outros que largam o Nordeste para tentar uma vida menos injusta nas grandes cidades."É importante ressaltar a atualidade do espetáculo, que traça de modo sutil um paralelo entre a trajetória do músico e dos sem-terra. "Passados tantos anos, o Nordeste continua sendo controlado pelos coronéis. Não houve mudança substancial na estrutura de poder e na distribuição dos latifúndios." O Vôo da Asa Branca. Musical. Texto e direção Deolindo Checcucci. Duração: 60 minutos. Quinta a sábado, às 21 horas; domingo, às 19 horas. R$ 10,00. Teatro João Caetano. Rua Borges Lagoa, 650, tel. 5573-3774. Até 22/7.

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