Musical para cantar sonhos e revoluções

Em forma de cantata, Cia. do Tijolo traz história de velhos e novos mártires

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES, O Estado de S.Paulo

25 de julho de 2013 | 02h22

Amor. Liberdade. Revolução. São palavras gastas - pelo uso e pelo tempo. São ideias difíceis de apreender. Mas foram essas as linhas condutoras escolhidas pela Cia. do Tijolo para criar seu novo espetáculo.

Cantata para um Bastidor de Utopias, que entra em temporada hoje no Sesc Pompeia, baseia-se em um texto de Federico García Lorca: Mariana Pineda. Obra de juventude do poeta espanhol, a peça conta o trágico destino de uma heroína de seu país. No século 19, Mariana foi morta pelo governo do rei Fernando VIII. Seu crime: ter bordado uma bandeira para a causa dos liberais republicanos. E, pior do que isso, ter se recusado a delatar seus companheiros.

Nessa montagem, o grupo dirigido por Rogério Tarifa e Rodrigo Mercadante repõe a trama verídica em formato musical. "Estudamos a forma das cantatas, voltamos a Bach e a Beethoven para entender como elas funcionam", diz Tarifa.

As canções usam os versos de Lorca e a montagem mantém a estrutura original, em quatro atos. O apego à criação de 1925, contudo, não impediu que muita coisa nova entrasse na versão dessa jovem companhia.

Em 2010, eles foram revelados com Concerto de Ispinho e Fulô, obra em que rememoravam a biografia de Patativa do Assaré. Na ocasião, valiam-se da música como elemento organizador da cena. Também já deixavam entrever um forte componente político, que transparecia nas dificuldades sociais vivenciadas pelo poeta popular cearense.

A atual Cantata... radicaliza a proposta ao contemplar lutas pela liberdade em diversas épocas e contextos. À história de Mariana, somam-se a de outros mártires. O próprio Lorca, assassinado durante a Guerra Civil Espanhola. Os desaparecidos políticos da ditadura militar brasileira - entre eles, nomes pouco lembrados. "Não foram apenas intelectuais e artistas que morreram. Também existem operários nessa história", observa Tarifa.

Ao evidenciar pontos de contato entre episódios historicamente tão distantes, a Cia. do Tijolo constrói um terreno consistente para mirar as novas contradições. A problemática urbana é hoje o lugar onde se dá a opressão, a truculência. Em um cotidiano duro e aparentemente distópico, qual seria o sonho possível? Durante o espetáculo, a pergunta não chega a ser verbalizada. Mas nem por isso deixa de ser feita.

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