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Musical 'Jacinta' é uma fábula sobre o ofício do ator

No espetáculo, Andréa Beltrão 'contracena' com Gil Vicente e Shakespeare, que revelam a imortal paixão pelo ato da encenação

UBIRATAN BRASIL - O Estado de S.Paulo,

14 de novembro de 2012 | 02h09

Andréa Beltrão já se preparava para cantar em cena: há 14 anos a atriz toma aulas de canto, modulando a voz que já utiliza com maestria na comédia e no drama. "A má atriz só aparece nos momentos em que Jacinta está representando para alguém. No restante do tempo, é a excelente atriz que Andrea é", comenta o diretor Aderbal Freire-Filho.

De fato, nas cenas de ensaio acompanhadas pelo Estado, no sábado, ela caprichou no timbre, pulando do drama para a comédia sem grande esforço. E, para completar, utilizando um sotaque português. "Adoro falar com sotaque, pois me dá outra persona", conta Andréa, que passou 20 dias em Portugal neste ano, conhecendo familiares do marido (o diretor de TV e cinema Maurício Farias).

O treino para valer, no entanto, foi vendo e ouvindo Raul Solnado (conhecido ator e humorista português, que morreu em 2009) e a famosa cantora Amália Rodrigues (1920- 1999). "Vi cenas hilariantes de entrevistas da Amália", diverte-se. "Ela era incisiva nas respostas, deixando qualquer perguntador atônito."

O uso do sotaque português pelos atores em boa parte do espetáculo tem um quê de fidelidade e outro de recurso teatral, reafirmando o tom cômico da peça. Em cena, Andréa divide o palco com Augusto Madeira, Gillray Coutinho, Isio Ghelman, José Mauro Brant e Rodrigo França, atores com os quais já trabalhou antes, o que reforça o sentido de homenagem ao teatro proposto pelo texto.

Todos cantam de música medieval a rock, passando pelo tradicional fado. O que poderia parecer um anacronismo - afinal, a história começa no século 16, quando Jacinta "mata" a rainha portuguesa com sua desastrosa interpretação - revela, na verdade, a despreocupação de Freire-Filho e Newton Moreno com o realismo: para eles, não houve interesse em reconstituir fielmente a História. "Fico com a neutralidade, o que, para o anacronismo, é um passo", observa o diretor.

É tal liberdade que permite oferecer verdadeiras viagens filosóficas, como a presença do autor português Gil Vicente, morto por volta de 1536, utilizando uma máquina de escrever. Ou ainda Jacinta revelando, em um certo momento, sua enorme vontade de conhecer Nelson Rodrigues. É em um pequeno texto do escritor pernambucano, aliás, que Andréa se inspira para os momentos 'desastrosos' - autêntica defesa do mau intérprete, a crônica termina de forma ribombante, como se espera na escrita de Nelson Rodrigues: "A verdadeira vocação dramática não é o grande ator ou a grande atriz. É, ao contrário, o canastrão, e quanto mais límpido, líquido e ululante, melhor".

A música serviu ainda para a melhor costura das falas de Jacinta - Freire-Filho lembra que, em determinados momentos, trocou três cenas pela canção que conta a entrada da protagonista no Brasil. Sim, depois de provocar a morte da monarca portuguesa, Jacinta é exilada na então colônia, onde, na busca pelo sucesso e aplauso, se junta a cinco homens para formar um grupo.

Trata-se de uma nova forma de homenagear o ato teatral, como explica Freire-Filho: "Essa formação de uma mulher e cinco homens é a mesma de um cambaleo, um dos oito tipos de trupe teatral que existiam no Século de Ouro espanhol, entre o 16 e o 17", comenta. "É como se cinco atores de hoje encontrassem uma atriz portuguesa do século 16 e empreendessem com ela uma jornada que vai retornar aos dias de hoje."

"É um poema cênico de amor a esse ofício", completa Newton Moreno, em declaração que consta no material de divulgação. Ele destaca uma cena para traduzir essa ideia: atores fantasmas voltam do além para atuar, tamanha a saudade que sentem do teatro. Em um instante mágico, Shakespeare aparece em pessoa, disposto a ajudar Jacinta a se tornar uma boa atriz. Sua fala é baseada na famosa cena em que Hamlet orienta um grupo de atores. É um dos momentos de Jacinta em que a comédia divide o palco mais claramente com a emoção. "Em meio ao tom farsesco, há bolsões de certo lirismo", afirma ainda Moreno.

Em sua eterna busca pelo reconhecimento, Jacinta conhece vários personagens e chega a formar um grupo com três 'marginais' (na verdade, um homossexual, um judeu e um negro), o que resulta na sua prisão. Ela é obrigada a representar para o inquisidor, que, tal como a rainha, morre pasmo com o desastre interpretativo.

Sem se abalar, o assistente do inquisidor decide se unir à trupe, que se torna em seguida um cambaleo com a chegada de um coveiro. E a casa ao lado de um cemitério é transformada na sede do grupo - outra homenagem, agora ao Teatro Poeira, onde Jacinta estreia amanhã, reduto fundamental da arte, administrado por Andréa e Marieta Severo e que se localiza próximo do cemitério São João Batista.

Jacinta ainda enfrenta muitos percalços em sua jornada por São Vicente, Rio, Recife, Salvador, Vila Rica (hoje Ouro Preto), chegando à linha do Tratado de Tordesilhas, que dividia o chamado Novo Mundo entre Portugal e Espanha. Ao longo de tal jornada, persiste a dúvida se Jacinta conseguirá ou não se tornar uma boa atriz, resposta que vem no final, em mais um tour de force de Andréa Beltrão.

JACINTA

Teatro Poeira. Rua São João Batista, 104, Botafogo, (21) 2537-8053.

5ª a sáb., às 21 h; dom., às 19 h. R$ 80/ R$ 100.

Até março.

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